
Poe Eleni Nogueira
Marly Rodrigues, Eliane Amaral, Vanessa dos Reis e Andrea Carvalho são responsáveis pelo projeto na cidadeApenas uma hora por semana, durante um ano. Pouco tempo, mas, se bem aplicado, pode ser o suficiente para resgatar e preservar histórias de vida. Esta é a proposta da equipe do Abrigo Municipal de Bertioga Casa de Apoio, que busca voluntários para o projeto Fazendo Minha História, em parceria com o Instituto Fazendo História. O programa objetiva proporcionar espaços de expressão nas duas casas de apoio da cidade, para que as 17 crianças e adolescentes acolhidas tenham a oportunidade de resgatar e registrar suas histórias de vida, por meio da leitura de livros infanto-juvenis; da relação com um voluntário; e da produção de um álbum sobre sua vida passada e presente, ou de sonhos futuros. A psicóloga Andrea Carvalho Silva, da Casa de Apoio, explica a importância do projeto: “A história da criança acolhida vai se perdendo. Porque, na maioria dos casos, é uma história de sofrimento, e para elas é muito difícil falar sobre isso. Mas, a partir da mediação da leitura, um dos eixos do projeto, quando a criança vai ouvindo outras histórias, recebe o estímulo para falar sobre a sua. Isso contribui para ela lidar com tudo isso e ser um adulto mais completo”. Para fazer parte do projeto, o voluntário precisa cadastrar-se, pelo e-mail [email protected]. Assim que formado o grupo (são necessários cerca de 20 voluntários) os inscritos passarão por três encontros de formação inicial e, posteriormente ao início das atividades, de reuniões periódicas de supervisão sobre o trabalho desenvolvido. O projeto funciona por meio de encontros semanais individuais com uma criança, pelo período de uma hora, durante um ano, na Casa de Apoio. O voluntário pode optar por uma ou duas crianças. Durante o encontro, são feitas leituras, conversas e montagem do álbum. A educadora Eliane Amaral de Souza pede o apoio da comunidade. “Precisamos da colaboração da comunidade, porque o projeto só pode ser feito com voluntários. As pessoas precisam se dispor a se capacitar e ter esse tempo para a criança, para criar um vínculo afetivo”.
Criança acolhida A Casa de Apoio de Bertioga tem duas unidades nas quais estão acolhidas 11 crianças e sete adolescentes, com idades que variam de menos de um ano a até 17 anos. De acordo com a psicóloga Andrea Carvalho Silva, os motivos que levam uma criança à casa são muitos; desde negligência, ou violência na família, até pais dependentes químicos ou alcoolistas. “Estas são situações de risco, e quando a criança está nessa situação e não há uma família extensa, ou pessoas próximas que possam cuidar, elas são levadas para o acolhimento”. O Estatuto da Criança e do Adolescente (Eca) estabelece que a criança fique no acolhimento institucional por até dois anos. Porém, há casos em que a criança não consegue sair antes desse prazo. “Primeiro a gente tenta resgatar os vínculos com a família; às vezes, essa família precisa ser trabalhada para que cesse essa situação de risco e a criança possa voltar ao lar. Quando isso não é possível, buscamos uma família extensa, tios ou avós, mesmo que não sejam da cidade, que possam ficar com a criança”, diz Andrea. Ainda segundo Andrea, quando se esgotam todas as possibilidades de a criança voltar ao núcleo familiar, ela é encaminhada para a adoção, a família substituta. “Nós informamos ao Fórum e eles inserem a criança no Cadastro Nacional de Adoção. Cruzam-se os dados e, às vezes, aparecem pretendentes”. O problema da adoção no país é a cultura de se optar por crianças pequenas, preferencialmente meninas e brancas. “Nem sempre a criança está dentro desse perfil; e aí ela acaba ficando mais tempo do que a lei determina”. Nestes casos, a equipe da Casa de Apoio procura desenvolver a autonomia do abrigado. “Inserimos eles em cursos profissionalizantes e programas de aprendiz, para que, quando alcance a maioridade, aos 18 anos, saiam capacitados”. Atualmente, na Casa de Apoio de Bertioga apenas quatro adolescentes estão no Cadastro Nacional e Internacional de Adoção. São dois irmãos (uma menina de 13 anos e um menino de 16) e outros dois irmãos gêmeos de 17 anos.
Quadrinho
Padrinhos afetivos Outra medida de apoio ao abrigado é o programa de Apadrinhamento Afetivo. São famílias que, após cadastro e avaliação por parte da equipe da Casa de Apoio, e, ainda, autorização judicial, ficam habilitados a levar a criança, ou adolescente, para sua casa nos finais de semana, feriados ou férias. “É uma forma de proporcionar a vivência familiar a essa criança. Ela também pode se tornar um amigo, ou um apoio para quando a criança alcançar a maioridade, caso ainda esteja abrigada”, diz Andrea. Mas ela orienta que essa família não pode estar no Cadastro Nacional de Adoção ou no projeto Fazendo Minha História. Mais informações sobre a Casa de Apoio e sobre os projetos podem ser obtidas pelo telefone 3317 3024.