
Por Ana Cláudia Gomes
O adolescente de 13 anos que estaria usando o jet ski que atropelou e matou a menina Grazielly Almeida Lames, de três anos, no último sábado (18), na praia de Guaratuba, em Bertioga, depôs na Delegacia da cidade, no final da tarde desta sexta-feira (24), sob forte aparato policial. Além dos investigadores locais havia o reforço de homens do GOE (Grupo de Operações Especiais) e até seguranças particulares. O menor estava acompanhado pelos pais, que também prestaram depoimento. Antes de comparecer à Delegacia, ele foi ouvido pela promotora Rosana Colleta, da Vara da Infância e Juventude de Bertioga. Com os depoimentos colhidos nesta sexta (24), incluindo o de testemunhas e mais outras que serão ouvidas durante a próxima semana, o delegado titular do município Maurício Barbosa Júnior prevê que o inquérito seja encerrado até sexta-feira que vem (02).
Socorro A menina Grazielly chegou a ser socorrida pelo helicóptero Águia, da PM (Polícia Militar), mas já chegou sem vida ao Hospital Municipal de Bertioga. Ela sofreu traumatismo craniencefálico e a mãe Cirleide Rodrigues Lames considerou que o socorro demorou a chegar. “Se tivesse sido mais rápido, talvez minha filha ainda estivesse comigo”, disse dias após o acidente. Do local do acidente (praia de Guaratuba) até a unidade hospitalar (centro de Bertioga), a distância pela rodovia Rio-Santos é de 27 km.
Depoimento Segundo o delegado, o adolescente contou que estava na casa de seu padrinho, o empresário José Cardoso, no condomínio Costa do Sol, em Guaratuba, para andar de jet ski. O empresário que reside em Suzano é o proprietário da Pajoan Central de Resíduos, mesma empresa que executava o serviço de coleta de lixo em Bertioga, na gestão anterior, é quem teria autorizado o adolescente a andar de jet ski. Mas o equipamento, que seria de Cardoso, conforme o adolescente seria pilotado por sua madrinha, que possui habilitação. “Ele contou que a madrinha demorou e ele resolveu sair com o jet ski”, afirmou Barbosa júnior.
Em disparada O adolescente disse que a embarcação estava na água, quando ele acionou a chave, que estava na ignição, e o jet ski saiu em disparada. O depoimento difere da informação prestada por uma das testemunhas ouvidas pelo delegado nesta sexta-feira (24), que afirmou ter visto vulto de dois adolescentes em cima da embarcação.
Autorização De acordo com o delegado, quem autorizou a utilização do equipamento foi o empresário José Cardoso, que também será chamado para depor. Apesar de ter imóvel na Riviera de São Lourenço, a mãe do adolescente estava na residência de Cardoso no momento do acidente, conforme revelou o delegado, que a ouviu em depoimento. Ela afirmou que ouviu os gritos do filho e, por instinto materno, deu fuga ao filho.
Ameaças O delegado detalhou ainda que a mãe do adolescente afirmou que seu filho estaria sendo ameaçado pelos banhistas. Eles então, teriam se dirigido de carro até a casa da Riviera e, em seguida, para Mogi das Cruzes, onde residem. O delegado informou que o pai do menor não estava na cidade, no momento do acidente. O outro jovem menor, de 14 anos, que também estaria no jet ski foi identificado e, de acordo com o delegado, será ouvido nos próximos dias.
Expectativa Antes do comparecimento do adolescente de 13 anos à Delegacia criou-se uma expectativa de que ele não compareceria. Na quinta-feira (24), durante depoimento dos pais e parentes da menina Grazielly, o advogado do adolescente, Maurimar Bosco Chiasso, demonstrou preocupação devido a “tamanho assédio e risco”. “Não há intenção da defesa de criar nenhum embaraço à apuração da verdade. Já está apurada a verdade. A autoridade policial tem todos os elementos coligidos”, disse. Para o delegado, não seria a presença dos repórteres que estaria atemorizando o jovem, “mas a presença de eventual pessoa que embarque no clima de violência e atente contra a vida do adolescente”.
Imprensa No final da tarde desta sexta (24), os advogados do adolescente tentaram despistar a Imprensa, que já se preparava para deixar a Delegacia. Um veículo preto, com placas de Mogi das Cruzes, cidade onde o menor reside, estacionou em uma entrada lateral, não sendo possível identificar os ocupantes. Os depoimentos duraram cerca de 2h e os depoentes saíram do local sem que pudessem ser vistos, com a ajuda de vários seguranças particulares e diversos veículos.
Sofrimento Os pais e dois tios de Grazielly foram ouvidos pelo delegado na quinta-feira (23), acompanhados pelo advogado da família, José Beraldo. Muito emocionada, a mãe Cirleide disse que espera justiça. Ela também revelou que em momento algum foi procurada pela família do adolescente que estaria pilotando o jet ski. “Queria que a mãe dele [adolescente] colocasse o filho dela no lugar da minha filha, assim ela saberia o que é sofrimento”.
Fundação Casa Para Beraldo, o fato de que era o adolescente que estava pilotando o jet “é inconteste, testemunhas falaram que ele estava”, ponderou. Ainda segundo o advogado da família da vítima, o caseiro do imóvel onde se encontrava o Jet ski chegou com um quadriciclo vermelho, que puxava uma carreta, sobre a qual estaria a embarcação, que foi utilizada pelo adolescente. “Está comprovado que o adolescente é infrator. Meu desejo é que ele vá para a Fundação Casa, para refletir sobre o que fez”, afirmou Beraldo.
Dolo eventual O jet ski estava na casa do empresário José Cardoso, no condomínio Costa do Sol, na praia de Guaratuba. Segundo a defesa da família de Grazielly, a embarcação não está em nome de ninguém. “Mas estava na residência, então é do proprietário da casa. Queremos que eles respondam por dolo eventual. Têm que sentar no banco dos réus e responder como criminoso e que respondam por omissão de socorro”, afirmou Beraldo.
Análises O advogado ainda mencionou que existem elementos de prova suficientes de que a mãe do adolescente o retirou da casa onde estavam hospedados. “Houve flagrante omissão de socorro. Acredito que tudo será apurado”. Segundo o delegado de Bertioga, no caso da mãe ter dado fuga ao filho existe crime previsto. “É considerado favorecimento pessoal, mas quem analisa isso é o Poder Judiciário”, considerou Barbosa júnior.