Mais de nove mil pessoas, entre quase 39 mil eleitores, não compareceram às urnas


Costa Norte
Publicado em 10/10/2014, às 14h30 - Atualizado em 24/08/2020, às 01h36

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Em Bertioga, o índice de abstenção chegou a 24,89%

Por Mayumi Kitamura

O Tribunal Superior Eleitoral divulgou que, em média, a cada cinco pessoas (19,39%), uma não compareceu às urnas no primeiro turno das eleições. Em Bertioga, o índice de abstenção chegou a 24,89%, de um total de 38.817 eleitores. Mesmo entre os que votaram, as dúvidas aparentes nas pesquisas eleitorais permaneceram e, o maior índice de votos brancos e nulos, somados, foi para o cargo de senador, representando 22,62%, ou seja, 6.596 votos. Já para presidente da República, este mesmo índice totalizou 7,92% do eleitorado. O descontentamento com os candidatos fez com que o jovem Matheus Cancian Poe não votasse nas eleições, desde 2010, ocasionando até mesmo o cancelamento do seu título. No último dia 5, sua visão não mudou e ele detalha seu pensamento sobre as eleições: “O voto é algo que parece ser muito simples, mas não é. Quando votamos em alguém, é porque compramos suas ideias, seus valores e, acima de tudo, acreditamos que pode escolher o melhor para nós. Hoje, com a realidade de nossos políticos, de seus valores, e por se venderem à corrupção, prefiro me ausentar e não compactuar com suas escolhas. Não voto e não votarei enquanto algum desses não me representar”. Comparecer às urnas não significa, necessariamente, escolher um candidato, por isso, parte dos eleitores prefere votar branco ou nulo. Este último é considerado voto de protesto e, somente na cidade, o índice de nulos foi de 4,22% (presidente) a 12,14% (senador). Entre as pessoas que decidiram fazer esta escolha na cidade está o jovem comerciante Sergio Macedo Duarte Junior. Em quase todos os cargos, ele preferiu anular seu voto, já que não criou expectativas em relação aos candidatos apresentados nas eleições deste ano. Mesmo descontente com os candidatos destas eleições, a aposentada Nair Estevam foi ao seu colégio eleitoral, a Escola Estadual Maria Aparecida, e votou no primeiro turno. Isso apenas com uma ressalta: ela votou porque é obrigatório. “Os candidatos são os mesmos de sempre, não temos muita opção, temos que votar nos mesmos que estão aí. Eu não concordo muito com isso, mas, infelizmente, falta opção e temos que exercer a cidadania e votar”. Em sua opinião, este panorama só mudaria com uma participação mais efetiva dos jovens, promovendo uma renovação política. As esperanças de dona Nair podem ser renovadas com o pequeno Natan Neves Lima, que, aos 11 anos, só não votou por não possuir a idade mínima necessária, pois até revelou quais seriam seus candidatos. Ele disse ter acompanhado todos os debates dos candidatos à Presidência e até comentou quem foi melhor, em sua opinião.

Análise Na opinião do analista político Rodolfo Amaral, o índice de abstenção em todo o litoral é influenciado por fatores diversos. “Um deles diz respeito à existência elevada de domicílios de veraneio (em Bertioga, este índice é superior a 60%). Muitos eleitores transferem o domicílio eleitoral para o local onde possuem casa de veraneio, a fim de aproveitar o final de semana eleitoral para votação e lazer. Ocorre que, por problemas de última hora (indicativos do tempo, por exemplo), os eleitores acabam não indo para o litoral e deixam de exercer o compromisso do voto”. Além disso, outro fator apontado é o elevado desinteresse na atividade política, em especial, nos locais com grande concentração de famílias humildes, e também a quantidade de eleitores idosos com idades que ultrapassam à imposta para o voto. O analista político acredita que não tem como atribuir as abstenções eleitorais a um motivo, e, sim, a uma combinação de vários fatores. “No caso de Bertioga, há também o registro antigo de muitas transferências eleitorais, em especial de Mogi das Cruzes, como forma de votação no pleito majoritário para prefeito. Como a eleição atual foi para outros cargos, os eleitores preferiram não se deslocar, uma vez que a multa é de pequeno valor”. Rodolfo Amaral disse que, para reverter este quadro, seria necessário um amplo processo de conscientização. Atualmente, apenas a Justiça Eleitoral realiza campanhas neste sentido na época de campanha.

Uma tonelada de santinhos

Panfletos descartados encheu sete caminhões da empresa de serviços urbanos Ludmila Borges os candidatos deveriam providencias a limpeza

O alto índice de indecisos nas pesquisas eleitorais motivou também a prática de uma infração muito comum nas eleições, o descarte de panfletos de candidatos, os chamados ‘santinhos’, nas vias públicas. De acordo com a Secretaria de Serviços Urbanos, foram recolhidos cerca de sete caminhões com estes papéis, um total aproximado de uma tonelada. Quem participou do processo de emancipação da cidade lamenta ver as ruas neste estado. Morador de Bertioga há 50 anos, na qual atuou como vice-presidente do movimento emancipacionista, Jerônimo Lobato acredita ser um contra-senso esta atitude de alguns candidatos. “Agora há pouco, um senhor de 88 anos disse: ‘Esse santinho todo no chão vai sair do meu pãozinho´. Vai mesmo, isso tem custo e é repassado para algum lugar. A gente lamenta, porque eu estou com 76 anos e eu sempre vejo isso, não muda. Será que é cultural? Se for, nós temos que mudar a nossa cultura”. Para ele, os próprios candidatos deveriam trabalhar para mudar essa atitude tão comum nas eleições, com programas educativos nas próprias escolas. Segundo ele, a pessoa em quem votou não tem nenhum santinho no chão. A estudante Ludmila Borges tem 17 anos e disse que preferiu não votar justamente por essa sujeira, e porque “um candidato é pior do que o outro, você tem que escolher o menos pior. Para fazer isso, é melhor não votar”. Para ela, os próprios candidatos deveriam contratar pessoas para limpar os santinhos que jogam nas vias. A quantidade de indecisos é o grande motivo, para o prefeito de Bertioga Mauro Orlandini, do grande volume de santinhos jogados nas vias. “A gente está praticamente com um ‘exército’ de funcionários para limpar nas ruas e não está dando conta. Isso acontece por conta da situação em que chegamos de, no dia da eleição, ter uma quantidade tão grande de indecisos. É claro que os candidatos apostaram nos folhetos - ao chegar próximo da escola, a pessoa vai pegar uma colinha no chão e votar. Daqui a pouco, nós vamos correr o risco de nossos representantes terem sido escolhidos por um papelzinho catado do chão”. Apesar da grande quantidade de santinhos nas ruas e da fiscalização em todas as escolas, ninguém foi autuado pela infração. Nenhuma ocorrência ou termo circunstanciado foi registrado no dia das eleições.

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