Festival Indígena reforça a importância da sustentabilidade e do respeito às diferenças


Costa Norte
Publicado em 26/04/2013, às 14h36 - Atualizado em 24/08/2020, às 01h16

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Por Mayumi Kitamura Antigas culturas que valorizam, sobretudo, a importância de cuidar do meio ambiente puderam ser conhecidas de perto no Festival Nacional da Cultura Indígena de Bertioga, realizado entre os dias 19 e 21, no entorno do Forte São João. Ao término do evento, representantes indígenas entregaram uma carta ao prefeito Mauro Orlandini, na qual prestam apoio na busca de patrocinadores, para que mais etnias possam participar da próxima edição da tradicional festa no município. Um dos principais enfoques foi a temática da vida e das dificuldades enfrentadas pelos índios no Fórum Social Indígena, realizado nos dois dias de evento. O vereador de São Paulo e ex-presidente do Instituto Ethos, Ricardo Young, foi um dos participantes. "A cultura do branco está matando a mãe terra, a vida no planeta. É preciso que nos desenvolvamos em harmonia, não apenas com os outros, mas com o meio ambiente", afirmou. Conhecido como um dos principais defensores da causa indígena no país, o índio Marcos Terena ressaltou a necessidade de terras, hoje uma das principais preocupações do povo indígena. "Se não houver a demarcação do território, esta cultura irá acabar". A mesa foi composta também pela secretária de Meio Ambiente de Bertioga Marisa Roitman, pela educadora e filósofa Cristine Taquá, por Carlos Terena, e pela coordenadora de políticas negras e indígenas da Secretaria de Justiça Elisa Lucas Rodrigues.

Integração O evento tem como foco a integração da população urbana com os povos indígenas, mas se mostrou uma oportunidade para que os índios se reunissem entre si, e trocassem experiências. “É muito importante os índios conhecerem a cultura das outras tribos. A gente vai evoluindo mais com o desenvolvimento dos outros”, comentou o índio Ubiranan, que é filho de pajé da etnia pataxó, da Bahia. A paresi halíti Ivanilce Naezokero colaborou na coordenação dos participantes, escolhidos entre as 56 aldeias desta etnia, distribuídas em cinco municípios do Mato Grosso. “Aqui todo mundo se reencontra. Têm pessoas da etnia que nós não vemos, então, nestes encontros, acabamos nos reunindo”, ressaltou. Desta edição, participaram os povos paresi haliti, nambikwara, waura, do Mato Grosso; kanela rãmkakomekra, do Maranhão; e guarani, de Bertioga, que recepcionou os convidados. Membros das etnias mehinako (MT) e pataxó (BA) fizeram questão de estar presentes, ainda que vindos por conta própria. “É preciso que o povo conheça as culturas indígenas, para que a sociedade não indígena comece a valorizar, e saiba respeitar a diversidade cultural”, afirmou o cacique Adolfo Timóteo Veramirin. A opinião do cacique foi compartilhada pelo professor e morador de Bertioga Jeferson Claiton Reis Correia, que prestigiou o evento pela primeira vez. “Estou maravilhado. Como eu sou professor, vejo isso como uma aula, na verdade cobre mil aulas numa sala, já que essa convivência a gente não tem. Oportunidades como estas são poucas, e estou muito contente com esse trabalho da prefeitura”. Para o educador, acompanhado pela mulher e filhos, o evento foi uma forma de aprendizado, para que a sociedade respeite as diferenças.

Encerramento No encerramento das atividades do festival, o prefeito recebeu uma carta, na qual os índios se propõem a colaborar na busca de patrocínios. Isto porque há uma fila de espera para que mais etnias possam participar das próximas edições. “A gente pretende fazer um trabalho de cooperação maior para ampliar a quantidade de povos participantes e de dias. No próximo ano, nós queremos fazer uma grande celebração com aproximadamente 20 nações indígenas do Brasil. Elas estão pedindo, e a gente precisa responder a esta demanda. Vamos fazer com que este evento seja uma referência para todo o país como o Centro da Cultura Indígena”, comentou Marcos Terena. O prefeito Orlandini disse ver esta carta com bons olhos. “Eu acho que é uma reivindicação que precisa ser analisada. Acredito que, cada vez mais, este encontro, que diz muito mais respeito ao povo indígena, tenha uma participação maior deles. Vamos adaptar esta sugestão, para que possamos aprimorar esta festividade”, disse.

Villas-Boas O indigenista Orlando Villas-Boas morreu há mais de dez anos, mas o legado construído com seus irmãos Claudio e Leonardo - a luta pela criação do Parque Indígena do Xingu - foi mantido. A viúva de Orlando, Marina Lopes de Lima Villas-Boas, conhecida como a primeira enfermeira do Parque Xingu, compareceu a um dos três dias de evento. “Eu estou achando maravilhoso, principalmente, porque encontrei meus grandes amigos, aliás, meus verdadeiros amigos, os índios. Acho que o artesanato que eles trazem sempre é cada vez mais bonito e melhor, e que a gente precisa valorizar, prestar atenção, e ver que eles têm uma cultura muito rica”, enfatizou. A atuação de Marina entre os anos de 1963 e 1967 foi reconhecida também pela Organização Mundial da Saúde (OMS) já que, nesses cinco anos de trabalho, não houve registro de mortalidade infantil e, em três destes anos, não teve nenhuma morte entre os adultos. Ao lado de Orlando, Marina sempre lutou pelos índios. Hoje, aos 75 anos, ela avalia como é tratada a questão indígena pela sociedade. “Acho que a questão do índio merece muito mais atenção do que está sendo dada, está um pouco desprezada. Precisa de mais vontade política em relação a eles”, avaliou.

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