Os aumentos dos alimentos, sobretudo do arroz, têm provocado comoção e denúncias nas redes sociais. Nesta segunda, 7, um perfil do twitter compartilhou uma foto que mostra pacotes de arroz de 5 kg sendo vendidos por R$ 42,99 numa rede de supermercados do Paraná.

Acumulando alta de 19,2% desde janeiro, o arroz ajudou a puxar para cima o Índice de Preços para o Consumidor Amplo (IPCA) que acumula alta de 2,44. Além do arroz, que há um ano custava metade do preço, outros produtos básicos e indispensáveis à mesa do brasileiro também acumulam altas nesse ano, é o caso do óleo (18,6%), leite (15,3%) e feijão (12,1%).    

Há um fenômeno global de disputa por itens da cesta básica, é o que afirma relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), braço da ONU que lida com questões relativas à alimentação e fome.

Supermercados de capitais, que na metade de 2019 cobravam 15 reais por um saco de 5kg arroz, hoje cobram até 40 reais pelo mesmo produto – mais que o dobro. Analistas econômicos apontam dólar alto e aumento das exportações do arroz como principais motivos para o aumento exorbitante do preço do alimento nas prateleiras dos mercados brasileiros. O dólar alto derrubou a cotação do real em 30% no primeiro semestre e, adicionalmente, as vendas de arroz no exterior cresceram cerca de 300% desde o início da pandemia, enquanto as importações caíram mais de 60%. Com a moeda fraca, vendendo mais e comprando menos, o produto fica mais caro no país. 

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Além disso, o período de entressafra do arroz, com plantações prejudicadas por condições climáticas adversas e pressionadas para atender mercados internacionais, que tem comprado ainda mais alimentos do Brasil, tem dificultado a aquisição de produtos de primeira necessidade pelos supermercados nacionais. Para tentar barganhar os preços com os fornecedores, redes varejistas estão segurando o estoque de alimentos mais procurados. Nessa briga, os mais prejudicados são os consumidores, sobretudo os mais pobres. De acordo com dados do IBGE, famílias mais ricas gastam 7,6% de seu orçamento total com alimentação, em famílias mais pobres, esse número chega a 22%. Quando o preço do arroz e da cesta básica sobe, a disparidade entre esses gastos tende a aumentar.  

Nesta terça-feira, 08, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se pronunciou sobre o aumento dos preços da cesta básica. Ele relatou ter aberto o diálogo com empresários do setor varejista e donos de grandes supermercados com o objetivo de conter a inflação “tenho apelado para eles que o lucro desses produtos essenciais nos supermercados seja próximo de zero”, afirmou Bolsonaro durante uma transmissão ao vivo nas redes sociais. Na última sexta-feira, 04, durante visita à cidade de Registro, o chefe do executivo nacional chegou a afirmar que a alta se devia ao auxilio emergencial, “porque veio o dinheiro do auxílio emergencial, o pessoal começou a gastar um pouco mais, muito papel na praça, a inflação vem”. Afirmou, para logo após pedir “patriotismo” e um “sacrifício”, dos varejistas.  

Tereza Cristina (DEM), ministra da agricultura, por seu turno, em reunião ministerial ocorrida nesta quarta, 08, quando questionada sobre o preço do arroz por uma youtuber mirim levada por Bolsonaro, descartou a possibilidade de desabastecimento “não vai faltar [arroz] e se Deus quiser vamos ter uma super-safra ano que vem”, disse a ministra.   

Com os preços do alimento ultrapassando os 40 reais em algumas capitais, a Câmara de Comércio Exterior (Camex), do Ministério da Economia, anunciou isenção da taxa de importação do alimento até 31 de dezembro, visando a aumentar a oferta do produto no mercado nacional, o que, em tese, diminuiria o preço. A desoneração, já válida entre os países do Mercosul, varia entre 10% e 12% e tem um limite de 400.00 toneladas do produto. 

Apesar das especulações, especialistas apontam que é cedo para apontar as causas absolutas do aumento. O fato é que a alta é do arroz é a maior dos últimos 15 anos, e junto dele, também estão em alta, além dos alimentos já citados, itens básicos como soja, aves, ovos, farinha de trigo e batata.

Um complicador adicional nas altas do arroz é que, além dos varejistas segurarem seus estoques para barganharem mais, os produtores do alimento também seguram os estoques para vendê-los quando os preços subirem mais, aponta a Escola Superior de Agricultura da USP, a Esalq.  

A Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA) atribui as altas nos produtos alimentícios a uma maior demanda global por alimentos e produtos agrícolas.

A Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), por meio de nota, atribui os aumentos ao dólar alto e a um “desiquilíbrio entre oferta e demanda” provocado pelas exportações descontroladas.  “O setor supermercadista tem sofrido forte pressão de aumento nos preços de forma generalizada repassados pelas indústrias e fornecedores”, disse o órgão que também afirmou estar se esforçando para manter os preços nas mais de 90 mil lojas no país desde o início da pandemia.