Óleo artesanal de maconha feito em casa. Este é o remédio utilizado pela biomédica Gizele Thame, de 61 anos, diagnosticada com um tumor cerebral, em 2018. Em apenas dois meses de tratamento, o fitoterápico devolveu a qualidade de vida da paciente, diminuindo os sintomas gerados pela tensão de portar a doença, como depressão, irritabilidade, insônia e dores no corpo. Também foi responsável pela redução do tumor, após dois anos de uso (de 1,2 x 0,8,x 0,8 cm para 0,7 x0,4 x 0,8 cm), conforme o último exame realizado em agosto de 2019. O próximo exame será em agosto deste ano.

Em uma estufa na cobertura de sua residência, em Bertioga, está a base para a produção do remédio, uma plantação de cannabis autorizada pela Polícia Federal. O responsável pelo cultivo, extração e preparação do remédio é o filho Raul Thame de Toledo Almeida @cultivandoacura, que abraçou a oportunidade de salvar a mãe de um difícil diagnóstico e buscou aperfeiçoamento na área.

Tudo começou com um simples tombo, que mudou a vida da biomédica e da família. Após o acidente ela passou a sentir muitas dores de cabeça e os resultados de exames apontou a existência de um tumor não-hormonal, que só poderia ser retirado com cirurgia.

Assustada, ela que já teve câncer de tireoide e achou que era metástase, decidiu que não iria realizar o procedimento. “Para o tipo de tumor que tenho não existe nenhum tratamento, somente o cirúrgico. Mas ele está perto do nervo ótico e perto da hipófise. Não tem como tirar o tumor sem tirar um pedaço da hipófise que regula os hormônios do corpo todo, ficaria dependente de 26 remédios por dia. Com a experiência que eu tinha tido com os hormônios da tireoide, optei por não fazer a cirurgia. Estava tranquila com minha decisão, mas infeliz com a situação”. 

Veio a depressão, a insônia, as dores e a irritabilidade. Foi quando o filho falou sobre o tratamento alternativo. Mas, entre a descoberta da doença e o sucesso do tratamento, a família teve que vencer um longo processo, com obstáculos que foram desde o preconceito e resistência da própria paciente contra o uso da maconha, até a luta por autorização para cultivar a planta. Para isso, mãe e filho contaram com apoio e orientação de médicos, organizações sociais voltadas ao tema, e escritório jurídico.

Vencida a batalha, hoje Gizele toma cerca de 30 gotas diárias do fitoterápico. Disposta e cheia de vida oferece o seu depoimento para levar informação a um número maior de pessoas. “Eu assisti muitos depoimentos e passei do preconceito, da maconha como uma droga, para ver a planta como um fitoterápico muito potente que ajuda muitos pacientes e atua em várias patologias. No meu caso, em dois meses eu já passei a sentir os benefícios. Agradeço muito a minha médica Dra. Eliane Nunes [diretora da SBEC – Sociedade Brasileira de estudos da Cannabis], à Cultive [Associação de Cannabis e Saúde] e a Deus que me fez abrir a cabeça e iniciar este tratamento”.

AUTORIZAÇÃO

Desde dezembro, a venda de produtos à base de cannabis no Brasil está autorizada pela Anvisa. Mas, o custo de um remédio vendido em farmácias chega a um custo de R$ 2,5 mil. Um valor pesado para o bolso de quem precisa do tratamento, como pessoas que sofrem de epilepsia severa e outros doentes de autismo, câncer, esclerose múltipla e dores crônicas.

Assim, o cultivo e preparo artesanal acaba sendo a melhor alternativa. Em 2019  Gizele Thame conseguiu a 37ª autorização para cultivar a cannabis para uso terapêutico no Brasil. Atualmente, de acordo com Emílio Figueiredo, diretor da Rede Reforma, são cerca de 74 autorizações em todo o Brasil, número computado desde novembro de 2006 .

A Rede Jurídica pela Reforma da Política de Drogas - Rede Reforma atua junto a pessoas que buscam tratamento à base de cannabis. O grupo orienta a parte jurídica, prepara a ação e leva o processo ao poder Judiciário.

Figueiredo explica que para conseguir o habeas corpus é necessário ter respaldo médico para usar a cannabis, estar cultivando a planta e ter sucesso no tratamento, sendo comprovado por laudo observacional do médico.

O contato é contato@reforma.org.br. Também são disponibilizadas informações pelo instagram @redereforma