Era o finalzinho da manhã desta quarta-feira, 14. O dia calmo e agradável na cidade de Bertioga edificava um estranho contraste com o clima de tensão e nervosismo na garagem da concessionária do transporte público da cidade. Os motoristas ali reunidos estavam apreensivos, era o quinto dia da oitava greve do ano. Depois de atrasar o vale do mês passado e o salário deste mês, a Viação Bertioga prometera depositar o vale e o salário atrasados nesta quarta-feira, 14, mas, quase no início da tarde, nada ainda havia entrado na conta. Por essa razão, como haviam informado, os motoristas decidiram manter a greve até a empresa lhes pagar. “A gente quer trabalhar, todos os funcionários que deviam estar em expediente estão aqui na porta da empresa. Basta eles[a Viação Bertioga] depositarem nosso dinheiro que a gente retorna”, afirmou um dos motoristas, doravante Motorista I (temendo retaliações, nenhum motorista quis se identificar, para diferenciá-los, eles serão numerados). Naquela altura muitos motoristas ainda acreditavam num desfecho amigável para o imbróglio. Algumas horas depois os motoristas iriam descobrir amargamente que estavam enganados. 

Foi um pouco mais adiante, no início da tarde sem chuva e com sol ameno. Os telefones dos motoristas que se encontravam concentrados ali na garagem e de outros que não estavam em expediente receberam, simultaneamente, a mesma mensagem infeliz. Por meio da impessoalidade e distância de uma notificação enviada por mensagem de whatsapp, a Viação Bertioga demitiu quase todos os seus funcionários.

No centro de uma crise econômica, no auge duma crise de saúde pública sem precedentes  em que o desemprego é o pesadelo de qualquer trabalhador, não houve diálogo, não houve chamada no RH, não houve psicólogo, não houve tentativa de negociação. Uma testemunha ocular sintetiza a imagem da arbitrariedade da empresa: “tinha uns pessoal lá chorando. Sabe? Covardia desse povo. Os motoristas dependem disso aí. Caramba, muito triste.”

Notícia triste num dia bonito. Era o fim do emprego. Todos ali estavam desempregados. 

Participe dos nossos grupos 👉 http://bit.ly/COSTANOTÍC2 📲 Informe-se, denuncie

De acordo com informações preliminares, em sua carnificina empregatícia, a Viação Bertioga demitiu pelo menos 92 funcionários, dos quais 60 motoristas, 27 monitores, e 5 funcionários da manutenção. Esse número corresponderia a mais de 70% do efetivo da empresa em Bertioga. Há indícios de que as demissões possam estar relacionadas a uma postura retaliatória da empresa em detrimento dos motoristas e funcionários terem realizado uma paralisação. No último sábado, 10, portanto um dia após a greve,  a empresa começou divulgar anúncios de vagas para motoristas, categoria que compõe o maior contingente de demitidos. Questionada ontem e hoje como uma empresa com dificuldades para pagar os atuais contrata novos funcionários, a empresa não se manifestou. O motorista II, demitido, ainda abalado, desabafa. “Nem aumento a gente tava pedindo, a gente tava pedindo o nosso dinheiro. A gente honrou nosso compromisso de empregados. Trabalhamos o mês todo. Eles não honraram o deles”, diz.

Na demissão enviada por whatsapp aos funcionários, a empresa alega que a demissão por justa causa dos trabalhadores teria se dado em função de “paralização abusiva” e descumprimento de decisão judicial. A decisão judicial em questão obrigava uma parcela dos trabalhadores a retornarem ao trabalho. A mesma decisão, entretanto, foi baseada no compromisso da empresa de pagar os funcionários hoje. Questionada ontem pelo Jornal Costa Norte, a empresa afirmou que “o pagamento dos salários integrais” dos trabalhadores seriam efetivados hoje. Questionada hoje, a empresa não se pronunciou.

Além da falta de pagamento, os motoristas são unânimes em apontar que a Viação Bertioga não é um exemplo no que se refere a boas práticas de transparência. Eles alegam sucessivos atrasos nos pagamentos, lançamentos futuros nas contas que não entram no dia combinado, e falta de diálogo. “Se eles tivessem tratado os trabalhadores com respeito. Olhar no olho do trabalhador. Jogasse limpo... Eles nunca chamaram ninguém pra conversar” Diz o motorista II; “Se eles chegassem e dissessem, ‘olha, a gente não vai conseguir pagar, mas vamos negociar’, mas não. Falaram que iam pagar no dia 7, criou expectativa e não pagaram. dia 8, mesma coisa. Hoje, a mesma coisa. Isso só nesse mês. Tem colega com água, luz atrasada. Colega sendo despejado. Tem colega passando fome. Recebemos 117 reais pra passar o mês”.

Os moradores da cidade também não estão felizes com a empresa e mesmo com o prejuízo que uma greve provoca, grande parte deles apoiam os motoristas. É o caso da faxineira Mayara Cristina dos Santos, de 30 anos, moradora das Chácaras, que vai diariamente trabalhar no Rio da Praia. “Essa semana eu já gastei 40 reais indo trabalhar, porque a empresa deposita no cartão e tenho que pegar outras formas de transporte que não aceitam o cartão. Hoje não fui trabalhar porque meu dinheiro acabou. Mas mesmo assim acho que os motoristas dos ônibus não tem que voltar. A causa deles é totalmente justa. Se não tão recebendo, não tem como trabalhar. Como é que a gente tem que pagar para trabalhar?  São famílias, mulheres que dependem do trabalho.”

 

A prefeitura de Bertioga se pronunciou ontem, 13, sobre a greve, antes das demissões. Ocasião em que informou, por meio de nota, que monitora e avalia o caso para tomar as providências cabíveis e que a Viação Bertioga deve cumprir suas obrigações e que não se pode aceitar que a cidade seja prejudicada. Sobre a situação do transporte público na cidade, a gestão municipal informou que “deflagrou processo licitatório para nova concessão, modificando o modelo hoje existente que não se mostrou eficiente, porém o processo está  em análise pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo”. Em relação às demissões dos motoristas, a gestão municipal disse que a prefeitura se manifestará em breve. 

O Sindicato dos Trabalhadores de Transportes Rodoviários de Santos e Região (Sindrod) também ainda não se manifestou até o fechamento desta matéria.  

Contatada, a Viação Bertioga não se manifestou sobre as alegações dos trabalhadores e usuários do transporte público da cidade de Bertioga.