Estava abafado. A sala havia ficado fechada por um fim de semana inteiro, e Nilton já estava sufocado. A secretária do Sr. Patron teve especial dificuldade em abrir as cortinas da janela, pois tomavam quase toda a parede atrás da mesa do escritório, mas, quando conseguiu, o sol da manhã entrou e iluminou todo o ambiente. A madeira bem lustrada da mesa, e o couro das cadeiras exalavam um cheiro característico, juntamente com o odor de fumo que se tinha dos charutos e cigarros que eram acendidos e apagados durante o dia naquele ambiente. Nilton não se incomodava mais.

            Em seu lugar habitual, Nilton estava acomodado para mais uma semana de trabalho. Havia se convencido de que seu serviço era importante como Atlas, que sustentava o mundo. A secretária saiu. Seguindo o cronograma, agora é hora do café. Odeio café¸ pensou. Já conhecia os passos de cada um no escritório.

            De forma não rotineira, Sr. Patron chegou meia-hora mais cedo. Bufava nervosamente e a veia de sua careca estava saltando. Jogou sua maleta por cima da mesa onde estava o computador e não se sentou na cadeira. Ficou andando de um lado para o outro, ajeitando as poltronas e as almofada do sofá. Nilton observava tudo com notável espanto, era comum que Sr. Patron ficasse nervoso, mas não daquela maneira. Algo de ruim definitivamente estava para acontecer.

— Onde está meu café? — gritou Sr. Patron. — Tudo neste dia tem que estar uma merda? Silvana, onde está meu café?

— Só um instante, senhor! A cafeteira está com problemas. — Nilton ouviu a voz feminina vindo de fora.

— Senhor Patron, por favor, se acalme. O que aconteceu? — Patron não ouviu Nilton.

Apressadamente e com os olhos arregalados, Silvana entrou na sala trazendo uma garrafa de café cheia. Sr Patron fez um gesto nervoso, apontando a mesa de canto, onde deveria ser colocada a jarra, o que Silvana fez, tremendo. Sr Patron ajeitou seu bigode, olhou no espelho, foi até a janela que ficava atrás de sua mesa e a abriu, acendeu um charuto e começou a fumar. As costas de Nilton começaram a queimar.

— Senhor, os acionistas avisaram que vão chegar um pouco atrasados para a reunião das oito — informou Silvana.

Patron respirou fundo e jogou o charuto pela janela. Olhou sério para Silvana e a dispensou. Decidiu que aquele era o momento de tomar café. Foi até o canto da sala e pegou a garrafa, encheu um copo de plástico e, sem pensar duas vezes, tomou e, imediatamente, cuspiu tudo, deixando cair também o copo. O café quente foi derramado em cima de Nilton, que gritou de dor.

— Silvana! — berrou Sr. Patron. — Traz já um pano! Derramei café no chão e nos móveis. Por que não avisou que o café está muito quente? Hoje é um dia estressante e você ainda me arruma mais essa? Limpe tudo antes que os acionistas cheguem.

A secretária entrou com pressa, trazendo um pano. Limpou o chão, o sofá e a mesa de canto. Nilton estava chorando, pois havia se queimado, mas ninguém criou comoção por conta disso. Novamente, pensou: Como Atlas, eu suporto tudo isso, meu trabalho é importante. Eu odeio café. Ali, de joelhos, com as mãos no chão e as costas arqueadas, aguentou novamente a jarra e os copos em suas costas. Olhou para Silvana em seu terninho cinza e a viu suar frio. Não conseguia entender o que estava de errado naquele dia.

Eram oito horas em ponto e os acionistas realmente estavam atrasados. Silvana colocou sobre as costas de Nilton uma bacia de vidro com maçãs para as visitas. Juntamente, colocou uma faca e um cinzeiro, caso os visitantes resolvessem fumar. Mesmo com dor e as costas sensíveis pela queimadura do café, Nilton não reclamou. No momento em que aceitou o emprego, já sabia dos malefícios.

Quando os acionistas entraram pela porta, estavam quarenta e três segundos atrasados. Todos com o mesmo modelo monótono de ternos pretos. Menos um, que estava de blazer cinza e óculos escuros. Sr. Patron forçou um sorriso, mas falhou. Acomodou os cinco homens na sala, três no sofá ao lado da mesa de canto, um na cadeira em frente à sua mesa e um, o que estava de óculos escuros, decidiu ficar em pé, apesar da insistência para que se sentasse. Com exceção do anfitrião, todos pareciam bem felizes e empolgados.

Um dos acionistas sentados no sofá estava mascando chiclete, quando decidiu que queria fumar. Como estava cansado, decidiu não se levantar para cuspir o chiclete, mas grudou-o na barriga de Nilton. Todos estavam aguardando as notícias boas do pesado investimento que haviam feito na empresa de Patron. O homem que decidiu ficar em pé foi até Nilton e pegou uma das maçãs e a faca, começou a partir a fruta para comer. Quando o homem estava se afastando, Nilton pôde ver um revólver na cintura. Entendeu então que aquele era um guarda-costas.

— Agradeço a presença de todos vocês, senhores.

— Estávamos ansiosos por essa reunião — falou o mais velho deles, Sr. Intol. — Conte-nos as boas notícias.

Sr Patron riu de nervoso. Puxou um lenço do bolso de seu paletó e enxugou o suor da testa e se afundou ainda mais em sua poltrona. Nilton observou que a expressão do Sr. Intol mudou de um ar amigável para um olhar fixo e penetrante. Imediatamente, Sr. Patron pegou sua maleta e retirou dali documentos com números vermelhos e amplas marcações. Talvez até algumas marcas de lágrimas. Quando pegou para ler, o velho acionista se levantou e andou pela sala, distribuindo as folhas para aqueles que estavam sentados.

— Mas o quê? Meio milhão de prejuízo para cada um de nós! — berrou o acionista fumante, que imediatamente apagou o cigarro nas costas de Nilton, subindo um cheiro de queimado.

— O que você fez com nosso dinheiro, Patron? — disse o velho.

Sr. Patron não conseguiu responder, apenas respirou fundo. Instantaneamente, todos os acionistas se levantaram gritando, a sala ficou cheia e movimentada. O segurança andou até Nilton novamente e pegou mais uma maçã enquanto se acomodava no sofá.

— Senhores, senhores, o mercado flutua! Infelizmente, o investimento não rendeu. Podemos achar um denominador comum para isto.

— Denominador comum? — riu Sr. Intol. — Denominador comum! É claro!

Sr. Intol sinalizou para que todos os outros acionistas saíssem da sala juntamente com ele, deixando apenas o guarda-costas e o Sr. Patron. O guarda-costas olhou para Patron e deu um leve sorriso.

Nilton estava ansioso. Finalmente, entendeu o motivo da estranheza aquele dia. Sem poder esboçar qualquer reação, sentiu quando o guarda-costas enfiou a faca de cortar maçãs em suas costas, em uma tentativa clara de intimidar o Sr. Patron. Um pouco de sangue escorreu, a faca ficou presa em um dos ossos da costela. Sr. Patron tentou correr em direção à porta, porém o guarda-costas foi mais rápido.

— Não, por favor! Eu vou conseguir o dinheiro! — gritou.

De forma silenciosa, porém inevitável, o guarda-costas arremessou Sr. Patron contra a parede, fazendo com que ele caísse em cima de Nilton, que, sem se mover, assistia a tudo. A queda foi tão violenta, que um dos braços de Nilton quebrou, fazendo-o tombar. Patron, ao se levantar, instintivamente, arremessou a mesa de canto contra o agressor, que caiu no chão. Em meio à luta, Silvana abriu a porta para ver o que estava acontecendo e viu o caos, preferindo não intervir e fechando a porta vagarosamente.

O guarda-costas recuperou a compostura e levantou Nilton apenas para arremessá-lo na direção do Sr. Patron, que havia corrido para trás da mesa do computador, ficando de costas para a janela.

Sr. Patron tentou desviar da mesa de centro, mas não conseguiu. Bateu de costas contra a janela e quase caiu. Habilmente, o agressor pulou por cima da mesa do escritório e forçou Nilton contra Sr. Patron. Quase desacordado, sem forças, sangrando, com um braço quebrado, Nilton tentou reagir, mas não era forte o suficiente para resistir aos dois homens. Patron foi perdendo suas forças e pendendo para o lado de fora do escritório, conseguindo ver a rua, que estava dez andares abaixo. Foi então que percebeu a faca da maçã, que ainda estava fincada em Nilton. Sr Patron reuniu as últimas forças e pegou a faca, cravando-a através dos óculos do guarda-costas, que vacilou para trás por conta da dor. Nilton caiu no chão, imóvel. Sr. Patron se recompôs ante o adversário, estava esbaforido, sangrando e irritado. Finalmente, pegou o guarda-costas pelo colarinho e o girou em direção à janela, fazendo-o cair andares abaixo, vencendo a luta.

Sr. Patron se ajoelhou no chão, ao lado de Nilton. Silvana entrou na sala, fingindo alegria por ver seu empregador vivo. Recolheu-o do chão e o colocou sentado de volta em sua cadeira. Recuperando o fôlego após tomar um copo de água, teve condições de analisar o estrago feito em seu escritório.

— Vou chamar a equipe de limpeza, senhor. Eles vão recolher toda essa bagunça.

— Quer saber? Deixe aí! Tire o dia de folga. Eu vou para casa também, o dia foi bem agitado. Não há pressa para arrumar as coisas, elas não vão sair daqui mesmo.

Nilton, ainda no chão, observou a secretária fechar as janelas e cortinas, trazendo a escuridão de volta para o ambiente. Conseguiu ver também o Sr. Patron pegar uma maçã do chão e comer. Parecia faminto. Nilton não conseguiu ver os dois saírem da sala, estava exausto, nenhuma peça sua se salvaria para reparo. Estava marcado, arranhado, queimado, quebrado de todas as formas que se pode imaginar. Nilton não se incomodava mais.