INJUSTO LITORAL

“Só não me bateram”: o triste relato da faxineira humilhada por família em prédio de Praia Grande

Auxiliar de serviços gerais denuncia mãe, pai e filhos, moradores de condomínio onde trabalha, por ameaçá-la, insultá-la publicamente e prometerem persegui-la após ela pedir que jovem cumprisse norma do prédio, a pedido do síndico; "Preconceito horrível", diz testemunha, única a intervir em defesa da faxineira que chegou a se esconder em guarita do prédio para não apanhar dos moradores

T. S. PauloPublicado em 29/08/2021 às 11:15Atualizado há 31/08/2021 às 17:39
Condomínio Residencial Vila Mar, a 50 metros da Praia Mirim, em Praia Grande (Imagem: Reprodução / KGS Imóveis)

Condomínio Residencial Vila Mar, a 50 metros da Praia Mirim, em Praia Grande (Imagem: Reprodução / KGS Imóveis)

Uma auxiliar de serviços gerais de 37 anos denunciou uma família de moradores do condomínio residêncial Vila Mar, em Praia Grande, por submetê-la a uma série de humilhações públicas e ameaças ao longo da última semana.

“Eles só não me agrediram. Foi insulto de tudo quanto é jeito. Falaram que eu sou faxineira, que eu deveria ficar no meu lugar de faxineira. Me mandaram calar a boca e que a minha vida ia ficar difícil tanto dentro do prédio quando fora do prédio”, afirmou a trabalhadora em entrevista ao Portal Costa Norte.

Segundo ela, as agressões verbais e humilhações aconteceram em duas ocasiões, no último domingo (22) e no dia seguinte, enquanto ela trabalhava no prédio, localizado na rua Oito de Dezembro, no bairro Mirim, a cerca de 50 metros da praia de mesmo nome.

No domingo, ela afirma que foi humilhada por uma jovem moradora, após solicitar, por ordem do síndico do condomínio, que ela cumprisse uma norma do prédio. Como se não bastasse, no outro dia, a mulher afirma ter sido novamente humilhada e ameaçada, desta vez pela mãe da jovem, proprietária de um apartamento no condomínio, em companhia de outro filho e do marido.

Uma testemunha confirma ambas as agressões.  “Eu presenciei. Foi horrível. A gente ficou até em choque. A gente tá falando de pessoas que não tem caráter. Então, disso pra querer prejudicar ela, ou depois querer, sei lá, bater nela, como eles falaram que poderiam fazer lá fora, é um pulo.”, afirma a mulher. Intimidadas, ambas pediram que suas identidades não fossem reveladas.

Maria (nome fictício) afirma que, na tarde do último domingo, trabalhava normalmente no prédio, inaugurado há cerca cinco meses, quando uma jovem moradora adentrou no edifício em companhia de um grupo de amigos.

O grupo vinha da praia encharcado de areia e água. Maria esclarece que recebeu ordens do síndico para orientar moradores que cheguem da praia a utilizarem um portão de banhistas instalado no edifício como forma de preservar a limpeza da entrada principal do prédio. A norma é amplamente difundida e bem aceita em construções praianas.

Cumprindo as ordens do síndico do residêncial Vila Mar, Maria relata que assim procedeu com a jovem moradora. “Eu estava limpando o hall e a filha da moradora, junto com os amigos, entrou. Eu fui orientá-la, achando que ela não tinha visto o aviso que tem no prédio”, justifica-se a auxiliar de limpeza, que prossegue.

“Falei com toda educação, ‘Oi, boa tarde, tudo bem? Pra quem vem da praia, tem a entrada de banhista’.  Aí, ela pegou e falou, na frente dos amigos e de todo mundo. ‘Cala a sua boca, eu entro por onde eu quiser ’.  Aí, eu falei assim, eu só orientando porque eu recebi ordens. Aí, ela falou assim. ‘Minha mãe pagou trezentos mil nesse prédio, eu faço o que eu quiser aqui dentro’. Aí, eu me retirei”, relembra-se a auxiliar de limpeza.

Heloísa (nome fictício), uma estudante de direito de 31 anos, testemunha das agressões, confirma a versão de Maria, que é casada, mãe de dois filhos adultos e avó de dois netos. “Ela avisou a moça que estava entrando de uma norma no prédio. A moça desacatou ela. Falou pra ela calar a boca”, recorda-se Heloísa.

Maria afirma que fez um registro da humilhação no livro de ocorrências do condomínio. “Fui na portaria e fiz uma ocorrência em um livro que a gente tem lá".

Rapidamente, a notícia do sapo engolido por Maria chegou até sua empregadora, uma empresa terceirizada que presta serviços para o condomínio. Na manhã de segunda-feira (23), dia seguinte à primeira humilhação, Maria afirma que recebeu uma ligação da empresa, pedindo a ela que “relevasse”. “A minha empresa entrou em contato comigo, pedindo pra eu relevar e tal. Eu falei, ‘Tudo bem. Acontece, fica tranquilo’ e relevei”.

Nada, porém, se mostraria tranquilo na semana de trabalho da auxiliar de limpeza. As humilhações sofridas por Maria - que diariamente sai do residêncial Vila Mar às 17h, corre para sua casa na Vila Sônia para realizar os afazeres domésticos e depois se apressa para, às 19h, entrar em um curso de auxiliar de enfermagem - não acabaram naquele triste domingo ensolarado em que uns vão à praia e humilham e outros, de uniforme azul, rodo e vassoura na mão, são humilhados.

Praia Mirim, em Praia Grande, (Imagem: Reprodução / Google Maps / João Marcos)

Ainda na manhã de segunda-feira, minutos depois de decidir “relevar” os insultos da jovem moradora, Maria foi procurada pela mãe dela, proprietária de um apartamento no prédio, em companhia de outro filho e do marido. A procura, porém, não foi para um pedido de desculpas ou contemporizações e sim para mais uma bateria de agressões, desta vez, acopladas a ameaças.

“Quando deu 10h30 da segunda-feira, eles chegaram. Possessos”, lembra-se Maria. “Aí, foi um desastre. Foi insulto de tudo quanto é jeito. Perguntou quem eu era pra questionar a filha dela, falou que eu sou faxineira e deveria ficar no meu lugar de faxineira. Aí, já aumentou, falou que ela tinha pagado 350 mil reais num apartamento. Ela falou que a minha vida ia ficar difícil tanto dentro do prédio quando fora do prédio, que ela ia me perseguir e fez insinuações de que não ia ficar por ali. A única pessoa que não me falou nada foi o marido dela, agora o filho e a mãe só faltaram me agredir”, recorda-se.

De acordo com Heloísa, acuada, insultada e ameaçada, Maria se escondeu na guarita do prédio. “A mãe dessa menina veio de São Paulo, começou a xingar a Maria, começou a falar que era ela que pagava o salário dos funcionários do prédio. Que a Maria era uma mera faxineira, que ela tinha que se colocar no lugar dela. Que ela tem um apartamento de 350 mil reais e que podia fazer como quisesse”, narra.

Maria lamenta. “Me rajaram, sabe? Não quiseram nem me ouvir. Triste. Me sentindo ameaçada. Me sentindo impotente. Um pouco assustada no trabalho. Com medo. Acuada. Sem saber o que vai acontecer”, desabafa, com a voz trêmula, a auxiliar de serviços gerais, que prossegue.

“Ela [proprietária] falou que ela ia me perseguir. Que não estava nem aí. Que [com] o dinheiro que ela tem, ela poderia fazer o que ela quisesse que nada ia acontecer com ela. Então isso me deixou preocupada”, confessa a trabalhadora.

Heloísa, testemunha das agressões, também lamenta. “Eu fiquei bem chateada, bem triste. Ainda, né? Minha mãe foi faxineira. São coisas que a gente não espera ver. Que a gente nem acredita quando vê. Pelo menos pra mim. Geralmente, quando acontece uma situação dessas por perto, eu sempre tento entrar na frente, porque eu acho um absurdo qualquer tipo de preconceito”.

Imagem aérea de Praia Grande (Imagem: Reprodução / Portal da Praia Grande)

De acordo com Maria, sobretudo a segunda agressão foi escandalosa, o que chamou a atenção de moradores do residêncial Vila Mar e de prédios vizinhos. Apesar disso, ninguém, exceto Heloísa, interveio em sua defesa. “Ninguem interferiu”, diz ela. Heloísa confirma. “Ninguém fez nada”.  

“Eu me senti humilhada, eu me senti um lixo, eu me senti um nada. Ela falava assim. ‘Você é a faxineira, se coloca no lugar de faxineira’. Eu tentava responder, e ela dizia ‘Não quero falar mais com você. Você é a faxineira”, recorda-se, numa crueza contida, a estudante de enfermagem, que questiona.

“Eu queria saber que lugar é esse da faxineira. Eu tô me perguntando até agora. Que lugar é esse? A faxineira não pode usar o mesmo banco que ela usa? A faxineira não pode usar o mesmo salão de cabeleireiro dela? Não pode ir no mesmo médico que atende ela? Eu não consigo entender isso. Que lugar é esse? A Heloísa [que interferiu] é branca. Por que não gritou com ela? Ainda quando ela estava exaltada, quando a Heloísa se dirigia a ela, ela falava numa super suavidade. E quando eu, que sou negra, me dirigia a ela, ela falava. 'Cala a boca, Você é faxineira, se ponha no seu lugar.'”

Após a segunda agressão, Maria afirma que a empresa em que trabalha permitiu que ela tomasse as providências que considerasse necessárias. “Eles [empresa] falaram pra mim que eu poderia fazer um boletim de ocorrência.”, relata Maria. A empresa, todavia, não prestou nenhum auxílio jurídico à funcionária humilhada duas vezes enquanto trabalhava.

Heloísa afirma que, caso Maria judicialize as agressões, apoiará a trabalhadora. “Ela vendo como ela vai agir judicialmente sobre isso. Eu falei pra ela. ‘O que você quiser fazer de processo, ou qualquer coisa desse tipo, eu contigo’. Nãonem ai, eu falo mesmo”, afirma.

Mesmo apavorada por possíveis retaliações, Maria afirma que tomou coragem na terça-feira (24) e procurou o 1º DP de Praia Grande onde denunciou a família de moradores injuriosos. O caso foi registrado como injúria e ameaça. O Portal Costa Norte não conseguiu contatar a família de moradores, o síndico do residêncial Vila Mar e a empresa empregadora de Maria e segue investigando o caso.     

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