Márcio Melo Gomes (Republicanos,) prefeito de Mongaguá, no litoral de São Paulo, foi às lágrimas em um desabafo emocionado em que trouxe sua dolorosa experiência pessoal durante a pandemia nesta segunda-feira (30).

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“Como eu queria hoje, sair dessa live aqui e poder ouvir do meu pai e do meu irmão assim: eu quebrei, o meu comércio quebrou. E eu não vou ouvir deles isso mais, se quebrou ou não quebrou, porque, infelizmente, por essa doença, eles perderam a vida”, disse, aos prantos, o mandatário de Mongaguá.  

Gomes tenta imprimir um choque de realidade naqueles que, tal como ocorre em todo o país, insuflados pela onda de negação da covid, pressionam a prefeitura a abrir o comércio sob o pretexto de que o comércio irá quebrar, mesmo com a pandemia devassando o frágil sistema de saúde da cidade.

Márcio Melo Gomes viu o pai e o irmão morrerem vítimas da covid-19 num intervalo de apenas seis dias. O pai, de 64 anos, faleceu no último dia 22, o irmão, de 33, no dia 28. Ambos, assim como Márcio, eram comerciantes.

“A minha família a vida inteira foi comércio. Eu sou comerciante desde os meus nove anos de idade. O meu pai era comerciante e o meu irmão era comerciante. Nós já quebramos, e com a vida nós conseguimos dar a volta por cima”, desabafou, arrebatado pela emoção da perda recente, o prefeito Márcio Gomes.

Pressionado por aqueles contrários às medidas de restrição impostas na cidade, e no meio de um devastador processo de luto, Márcio esclareceu que não deseja que o comércio da cidade quebre, mas não há possibilidade de hierarquizar os estabelecimentos em detrimento das vidas humanas que são ceifadas como moscas na avassaladora escalada das novas cepas da covid no estado de São Paulo.

"Não que eu queira que ninguém quebre. Mas como eu queria ouvir agora, do meu pai e do meu irmão. Um menino de 33 anos de idade que deixou duas filhas, uma mulher, e eu queria poder escutar isso deles na hora que terminasse essa live”, disse, embebido em lágrimas, o prefeito de Mongaguá.

O prefeito alertou para a gravidade da doença, e disse que não tem medido esforços desde o início da pandemia para proteger a população da cidade. Ele também defendeu as equipes médicas do município.  

“Peço desculpas por transbordar aquilo que eu estou sentindo. Mas simplesmente pra dizer pra vocês que ninguém aqui está brincando. Que nós estamos nos empenhando ao máximo, que ninguém numa UPA [Unidade de Pronto Atendimento] aguenta doze, 24 horas de plantão porque quer perder a vida das pessoas.  É hora de união, de amor ao próximo. Que Deus abençoe cada um de vocês. Que Deus abençoe a cidade de Mongaguá”, concluiu com emoção o prefeito.

Familiares do prefeito vítimas da covid

Givaldo Alves Gomes, de 64 anos, pai do prefeito, estava internado no Hospital Regional Jorge Rossmann, em Itanhaém, com aproximadamente 80% dos pulmões comprometidos. Ele faleceu na noite da última segunda-feira (22).

O irmão do prefeito, Givaldo Melo Gomes Junior, conhecido como 'Cabecinha Junior', tinha 33 anos, havia testado positivo para a doença na semana passada, mas passava bem. Após piora, ele foi internado na Santa Casa de Santos, onde faleceu neste domingo, dia 28.

Covid-19 em Mongaguá

Mongaguá, assim como a Baixada Santista, está em lockdown visando conter a sobrecarga do sistema de saúde e o avanço da doença. A região tem passado por sistemáticos protestos de uma pequena parte dos comerciantes da região, descontentes com as restrições.

De acordo com o último boletim covid das prefeituras, a cidade de Mongaguá, com pouco mais de 50 mil habitantes, registra 3.335 casos confirmados e 86 óbitos. Atualmente 28 pessoas estão internadas com covid-19 nas enfermarias da cidade. Mongaguá não possui UTIs covid, os casos graves são transferidos para hospitais de referência na região. No momento, a cidade vacina os idosos de 69 anos.