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Thalia Gonçalves de Olinda passou por momentos de terror: "Eu fui espancada, levei vários socos e chutes na cabeça, rosto e corpo, estou toda machucada, não é só a dor física, mas a psicológica", foi o que relatou a jovem na semana em que o crime aconteceu. | Autor: TV Costa Norte
Foto: JCN

Caso Thalia: Vítima nega estupro em entrevista exclusiva

O caso ganhou repercussão após a vítima publicar seu relato em seu perfil em uma rede social


18 de janeiro de 2019 às 18:07
Por Da Redação

A jovem Thalia Gonçalves de Olinda, 21 anos, agredida pelo marido Paulo Roberto Sabino Barbosa, 29 anos, concedeu uma entrevista exclusiva para o Sistema Costa Norte de Comunicação, na manhã da sexta-feira, 18, e negou que o companheiro a tenha abusado sexualmente.

O caso ganhou repercussão após a vítima publicar seu relato em seu perfil em uma rede social.

O crime ocorreu  em um casa noturna na Riviera de São Lourenço, na madrugada do dia 6 de janeiro. Na ocasião, Thalia contou que foi agredida por ciúmes: "Levei vários socos e chutes na cabeça, rosto e corpo, estou toda machucada, não é só a dor física, mas a psicológica".

A jovem fez um boletim de ocorrência (BO), exame de corpo de delito e desabafou no Facebook. No entanto, dez dias após o crime, na quarta-feira, 16, o suspeito foi ouvido pelo delegado titular Wanderley Mange e a mulher tentou retirar a queixa, mas o pedido foi negado.

A autoridade afirmou que o suspeito negou o crime: "Ele diz que não fez nada. Ela pediu a retirada da queixa, mas já temos o boletim de ocorrência, laudo do IML e o caso é uma ação penal incondicional, não depende da representação da vítima. Ele foi indiciado por lesão corporal dolosa agravada pela Lei Maria da Penha e por estupro de vulnerável. Instauramos o inquérito e será enviado para o Ministério Público. Eles vão dar andamento ao caso".

Thalia Gonçalves de Olinda passou por momentos de terror: "Eu fui espancada, levei vários socos e chutes na cabeça, rosto e corpo, estou toda machucada, não é só a dor física, mas a psicológica", foi o que relatou a jovem na semana em que o crime aconteceu. | Autor: TV Costa Norte

Confira a entrevista na íntegra:

(Jornal Costa Norte) Como era o relacionamento de vocês?

(Thalia) Do começo do nosso relacionamento eu não tenho do que reclamar. Ele sempre foi um cara legal, sempre me tratou bem, estava tudo bem, nunca tinha acontecido esse tipo de coisa. Só que depois de um ano, começamos a brigar muito. Por ciúmes, tanto da minha parte quanto da parte dele. Daí começou a chegar no nível de brigar e ele puxar meu cabelo, me dar um empurrão, essas coisas.



(JCN) Então esse tipo de agressão já aconteceu outras vezes?

(Thalia) Já sim, depois de um ano de relacionamento.



(JCN) Explica o que aconteceu naquela noite? 

(Thalia) Aquela noite nós bebemos demais, tanto eu quanto ele, e eu comecei a passar mal. Eu falei:'Vamos embora'. E ele falou: 'Espera um pouquinho que eu vou chamar um amigo meu'. E nisso que ele foi chamar o amigo dele, eu comecei a passar mal e pedi ajuda para quem estava perto de mim. Quando ele voltou, me viu conversando com um rapaz e não quis saber o que eu estava conversando. Ele ficou enfurecido, ficou louco a hora que me viu conversando com outra pessoa. Foi a hora que ele puxou o meu cabelo e gritou comigo. Aí chamaram o segurança, saímos para fora da balada e ele voltou a me agredir dentro do carro, lá fora (do lado de fora da boate) e dentro do carro até eu chegar em casa.



(JCN) Então, na casa noturna ele te agrediu? De que forma ele te agrediu?

(Thalia) Ele me puxou pelos cabelos e foi nessa que eu caí no chão. Ele me levantou de novo e saiu me puxando. Foi quando chamaram os seguranças.



(JCN) O que levou você a expor esse caso?

(Thalia) Olha, não sei dizer porque eu fiz isso. Quando fui na delegacia e fiz o B.O. Eu já tinha feito o B.O. antes. Eu queria dar um basta nesse relacionamento, e falei: 'como é que vou fazer isso?' Fiquei pensando nisso. Como que ele me bate e nunca vai ter consciência do que fez? Sabe quando você quer desabafar? Infelizmente, fiz a besteira de publicar no Facebook e aí deu essa repercussão toda. Agora que o sangue esfriou, a raiva passou, me arrependo de ter me exposto assim, não só por mim, mas por ele também. Como algumas pessoas disseram, eu acabei com a vida dele.



(JCN) Você se arrepende de ter se exposto no Facebook ou você se arrepende de ter feito o boletim de ocorrência?

(Thalia) Não sei dizer. Olha tudo o que causou por causa disso. Não queria estar passando por isso. 



(JCN) Você se arrepende da consequência da exposição ou das medidas legais que vão ser tomadas agora? Porque a ação penal independe da sua vontade, como você já descobriu na delegacia. Agora a própria Policia e o Ministério Público tomam conta do caso.

(Thalia) Eu me arrependo mais da exposição mesmo, porque, por mais que eu tenha ido lá e feito o B.O., ninguém iria saber do que está acontecendo.


(JCN) Então, de ter feito o BO e ter tomada uma medida legal você não se arrepende?

(Thalia) Não me arrependo. Eu acho que qualquer mulher que for agredida tem que denunciar mesmo. Tem que procurar os seus direitos, porque não é assim que as coisas funcionam, e tudo tem uma consequência. Se o seu marido te bater, ele vai ter que pagar por isso de alguma forma.



(JCN) Durante esse um ano, que você veio sofrendo algumas agressões leves, mas mesmo assim sofrendo algum tipo de agressão, você chegou a sentir algum  tipo de medo dele?

(Thalia) Cheguei a sentir medo quando a minha mãe falava pra mim: 'Ah, hoje ele puxou seu cabelo, daqui a pouco ele vai ter bater de verdade e vai doer muito em você. Você vai ficar marcada, com roxo. Eu quero  ver o que você vai fazer'. Aí eu sentia medo. Eu gostava muito dele, amava muito. Então, você acaba passando por cima de tudo. Tipo, ele me bateu, mas a culpa é minha, entendeu? Se eu não tivesse feito aquilo de errado, ele não teria me batido. Como já tá passando até isso na minha cabeça também.



(JCN) Ele chegava a demonstrar que a culpa era sua?

(Thalia) (Faz que sim com a cabeça). Como agora, eu converso com ele, mas eu não vejo arrependimento. Querendo ou não, ele é um homem, tem muito mais força do que eu. Um tapa que ele me der, eu caio no chão. É covardia, entendeu? Ao invés de ele assumir o erro dele e falar: eu errei em ter te batido. Mas ele não assume.



(JCN) Em nenhum momento ele te pediu desculpas?

(Thalia) Ele já me pediu desculpa, mas quando eu falo em questão de justiça, o que vai acontecer com ele na Delegacia, ele se revolta: ‘a culpa é sua, se você não tivesse feito isso, nada disso estaria acontecendo. Por que você não resolve isso entre eu e você?’. Na hora de fazer o corpo de delito, o médico falou que eu estava com um hematoma e perguntou se tivemos relações sexuais. O Paulinho falou que a porta do guarda-roupa caiu em cima de mim. Que eu puxei a porta do Guarda roupa, mas eu não lembro disso. Ao invés de eu falar isso para ele (médico), eu fiquei quieta. Deixei o médico colocar lá como abuso sexual. Eu deixei ele colocar isso por pura vingança e isso eu me arrependo. Ele não abusou sexualmente de mim, eu sei que isso não aconteceu. Eu prestei queixa disso também, mas na vingança. Disso eu me arrependo, mesmo que eu tenha que pagar por uma  acusação falsa ou qualquer outra coisa na Justiça, mas isso eu me arrependo.



(JCN) Você depôs na delegacia essa semana. Você retificou isso no seu depoimento?

(Thalia) Eu tentei mas não tem como voltar atrás. Ele já está sendo julgado por isso. Agora eu vou tentar escrever a mão isso para mostrar para as autoridades e falar que eu realmente menti. Falei isso por pura vingança.



(JCN) Por telefone você chegou a relatar que ele urinou em você e chutou suas partes íntimas, mas no facebook, você disse que ele não tinha te violentado sexualmente. Como você a conclusão que ele urinou em você?

(Thalia) Porque eu acordei e estava cheia de urina. Até o meu cabelo tava cheio de urina e eu estava no chão. Não lembro  de nada do que aconteceu quando chegamos em casa.



(JCN) Você chegou a perguntar para ele?

(Thalia) Ele falou: 'ah, você deve ter feito xixi na roupa'. Mas eu estava toda molhada, deitada no chão, sem a minha saia. Eu não lembro de ter tirado a minha saia. Eu não lembro de nada, não tem como eu culpar ele de uma coisa que ele não fez e eu levei isso a diante, mais na intensão de ferrar com ele.



(JCN) Em algum momento vocês chegou a ser coagida por ele ou pressionada de alguma maneira?

(Thalia) Acho que senti mais pela família dele, sabe? Me arrependo de ter feito isso, ter exposto ele dessa maneira. Porque, querendo ou não, ele sofreu ameaça. Não por mim, mas pelas pessoas da rua, que se revoltaram com a situação. Fiquei com medo de, realmente, aconteceu alguma coisa com ele. Não por sentimento, mas por empatia mesmo. E se ele apanhar na rua? E se ele pegar 10 anos de cadeia por estupro? Sendo que ele não fez isso. Eu levei isso a diante mais na questão de tentar colocar ele na cadeia, por ele ter me batido. Agressão houve, mas violência sexual não. Por isso que eu resolvi falar com ele.



(JCN) A família dele chegou a falar com você a respeito disso?

(Thalia) Chegou a falar, mas assim, por alto. Em comentários de publicação. Quando vinha falar comigo por mensagem, eu já bloqueava, não queria ter contato.



(JCN) Depois da agressão, quando você acordou, chegou a comentar que ele cuidou de você; te levou na farmácia. Como você vê essa atitude dele? Primeiro ele te agride e depois ele cuida...

(Thalia) É exatamente o que você falou. Primeiro ele me agride, depois ele me cuida. Eu preciso ser maltratada para ele me tratar como eu deveria ser, foi nessa conclusão que cheguei, que vi que não era um relacionamento bom pra levar a frente e que tava me fazendo mal.



(JCN) Esse tipo de atitude já tinha acontecido outras vezes?

(Thalia) Não nessa gravidade, mas já havia acontecido antes.



(JCN) No seu relato, você chegou a falar que enquanto ele estava na farmácia, você viu a oportunidade de fugir. Ele te prendeu de alguma maneira dentro de casa?

(Thalia) Não me prender, mas lógico que se falasse que ia na casa da minha mãe, ele ia criticar. Ia falar: 'Não vai, meu. Você está com a cara toda roxa, como é que você vai ir assim?'. Eu voltei a falar com ele e disse: 'Paulinho, a partir do momento em que eu sai do seu carro e você teria consciência que eu ia para a delegacia ou para a casa dos meus pais, por que você não veio falar comigo, ao invés, de ficar quieto?'. Ele falou: ‘Meu, você está com a cara toda roxa. Imagina eu ir atrás de você na casa da sua mãe e você com a cara toda roxa’. Por medo.



(JCN) Em nenhum momento, durante o relacionamento, você foi forçada a fazer o que não queria?

(Thalia) Não, em nenhum momento.



(JCN) Como você viu toda essa repercussão que o caso teve? As pessoas revoltadas no facebook. Muita gente chegou a compartilhar a sua publicação. Fizemos matéria, outros jornais também fizeram.

(Thalia) Eu me arrependo de ter exposto. Eu não queria estar passando por isso. Por mais que as pessoas falem: 'ah, ela está gostando, porque ela está passando na televisão'. Mas ninguém sabe o quanto é ruim ter que fazer isso. Você ter de estar explicando para todas as pessoas que estão ao seu redor tudo o que aconteceu, ficar remoendo e ainda assistindo você falando  daquilo que te fez mal. É difícil.



(JCN) Que recado você deixaria para outras mulheres vítimas de agressão?

(Thalia) Não aceitar nenhum tipo de agressão. Nem humilhação, nem puxão de cabelo, nem um tapa. Porque tudo começa com um puxão de cabelo, começa com um tapa, começa com chute, com empurrão. Até chegar a esse ponto e, querendo ou não, eu sou humana também. Você acaba tirando uma raiva tão grande de dentro de você, que quer ferrar a pessoa a qualquer custo. Porque sabe que só a agressão não vai colocá-la na cadeia. A pessoa vai no máximo responder em liberdade e foi o que acabou acontecendo comigo. Eu levei essa história a diante. Realmente eu acordei sem a minha saia, acordei no chão, mas assim, o médico me perguntou e eu deixei ele colocar violência sexual, mais na intenção de colocar ele na cadeia.



(JCN) Você acha que com a repercussão do caso, de alguma forma, ajudou outras mulheres a denunciar?

(Thalia) Acredito que sim.



(JCN) Você falou que ele vai ser preso.

(Thalia) Eu estive no fórum. Estou em contato até com a advogada dele, porque falei para ela e para ele que eu quero a verdade. Não quero que ele fique preso lá dez anos por uma coisa que ele não fez. Se, infelizmente, a Justiça não coloca um homem que bate em uma mulher atrás das grades, quem sou eu para tentar mudar isso. O que eu falei não é verdade, ele não abusou de mim. Falei isso para ferrar com ele.



(JCN) Você temeu pela sua vida? Você achou que ele poderia te matar em algum momento?

(Thalia) Fiquei com muito medo. Cheguei a falar para ele: ‘Paulinho, eu fiquei com medo, eu fiquei assustada.’ Eu me olhei no espelho e fiquei apavorada. Aí ele disse: ‘Ah, mas você não estava demonstrando isso perto de mim”. Eu falei: ‘Mas é claro que não, que eu não ia mostrar desespero perto de você, mas eu tava’.



(JCN) No seu primeiro relato, você falou que se trancou no banheiro e que ele arrombou a porta. Ele ficou olhando você tomar banho. Naquele segundo, em que ele arrombou a porta, você achou que ele poderia te matar?

(Thalia) Achei que ele ia continuar me batendo, porque estava chorando muito alto, estava gritando. Ele arrombou a porta do banheiro e disse: 'Para de gritar. Os vizinhos estão escutando’. Aí eu fiquei com medo de ele continuar fazendo coisas comigo. Só que não. Ele desligou o chuveiro. Estava sentindo muita dor no meu corpo, não sei se foi por causa das agressões ou porque eu dormi no chão. Não estava conseguindo me mexer direito. Ele foi e desligou o chuveiro, ajudou a me secar, me trocou. Fizemos alguma coisa para comer e comemos. Depois ele me levou na farmácia para comprar o remédio para dor.



(JCN) E foi aí que você fugiu?

(Thalia) Foi aí que eu fugi para a Delegacia.



(JCN) Pode-se dizer que você fugiu do seu relacionamento, por que foi aí que vocês não se viram mais?

(Thalia) Foi aí que não nos vimos mais.



(JCN) Tem medo de, se ele foi preso e depois de solto, chegar a ir atrás de você?

(Thalia) Agora não mais. Por essa repercussão e tudo o que aconteceu, eu acho que ele entendeu que tudo o que fizer de errado, vai ter uma consequência. Que nem eu, menti ao afirmar que abusou de mim para poder ferrar com ele. Sei que isso vai ter uma consequência, mas assumo isso. Agressão houve sim, ele sabe do que ele fez.



(JCN) Você tem esperança de retomar o seu relacionamento com ele?

(Thalia) Em certos momentos isso passa pela minha cabeça. Não vou dizer que não. Porque assim, não foi só coisa ruim que passamos juntos. Dói muito você pensar: 'nossa, ele me bateu'. Fico pensando por que ele me bateu. A culpa é minha? A gente se culpa o tempo todo, é difícil.

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