A música movimenta e interliga Bertioga - Sistema Costa Norte de Comunicação Bertioga-Especial | Sistema Costa Norte de Comunicação
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Foto: Aline Pazin

Nove horas semanais dedicadas a aulas de música, de segunda a domingo - tendo apenas as quintas-feiras livres. Esta é a rotina da pequena Vivian Akemi de Moura Aikawa, 12 anos, aluna do curso de violino em três entidades da cidade. Como ela, mais de 800 pessoas estão envolvidas com música, em Bertioga, um movimento que não para de crescer e busca por mais espaço. 

Foto: Aline Pazin

Noite de quarta-feira, 24 de abril. Estamos no salão cultural da igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias para acompanhar o ensaio de parte dos integrantes da Orquestra Acica, com instrumentos de sopro e corda, além do cajón (percussão). Em uma sala pequena, 15 músicos, com idade entre 10 e 40 anos, iniciam os primeiros acordes e, de repente, o ambiente se enche de melodia. Eles tocam New York, New York, consagrada por Frank Sinatra, em seguida a 9ª Sinfonia, de Beethoven. O ensaio não para, e quando tocam Eye of the Tiger, um single da banda de rock Survivo, sente-se a intensidade de cada nota expressa no rosto e no corpo dos músicos - cada qual concentrado no ritmo de seu instrumento - e, juntos, provocam uma emoção que toca a alma. Entendo o significado de tanta paixão.

Foto: Aline Pazin

Entre os músicos da noite, Pablo Henrique Mendes Nehmer, 14 anos. Ele toca flauta transversal há quatro anos, e já tem uma certeza: “Vou fazer bacharelado em música”. Pablo estuda teoria musical na Fundação 10 de Agosto, na Riviera de São Lourenço,e integra duas orquestras - a Fundação 10 de Agosto e a Acica (Associação Cultural Internacional da Criança e Adolescente). Assim é: os músicos circulam pelos grupos, e o que aprendem em um, multiplicam no outro, em uma corrente que reforça o desejo de   criar uma orquestra ou uma sinfônica oficial na cidade. 

Foto: Aline Pazin

A Acica possui dois polos, um na Chácara Vista Linda, com aulas de iniciação musical, música e clarinete, para crianças e adolescentes e, outro, de flauta doce, para crianças de 6 a 10 anos. Os ensaios da orquestra, com 25 membros, acontecem em espaço cedido pela igreja Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, na Vila Tamoios. “O objetivo é fortalecer o trabalho de música na cidade. Nos adolescentes a música supera as expectativas”, diz Gisele Gonzaga, coordenadora pedagógica da Orquestra Acica. 

Foto: Aline Pazin

Edson Souza Borges, professor de música e maestro da orquestra Petra, do Projeto Artis, que mantém cursos de música e orquestra na sede da igreja Rocha Eterna, no Jardim Albatroz, também acredita na música como forte aliada dos adolescentes e jovens. “A música desenvolve a sensibilidade, socializa. A orquestra simboliza a união de instrumentos e une as pessoas. Ajuda também na disciplina, pois ensina a respeitar o tempo do outro”. 

Os adolescentes Deivid Marcus Carvalho Deodato, 14 anos, (saxofonista), Leandro Pereira, 17, (violoncelista) e Priscila Jorge Gonçalves, 16, (tecladista e flautista), moradores da Chácara Vista Linda, cristalizam estes pensamentos. Deivid diz: “Dedicar-se é muito bom. Estudo música três horas por dia. É importante porque ocupa a mente da gente”. Leandro afirma que a música é um projeto em sua vida. “Eu sempre quis me encaixar nela e resolvi estudar e me aprofundar no assunto. Estou atingindo meus objetivos”. 

Foto: Aline Pazin

Priscila, por sua vez, estuda música há seis anos na Fundação 10 de Agosto, e já atua como monitora no curso de musicalização infantil de flauta doce da Acica. Um aprendizado notável em sua linha de pensamento: “A música é necessária para o ser humano. Ela tira as crianças da rua e ocupa a mente com coisas boas. A gente vai crescendo e expandindo o conhecimento sobre ela. É muito bom”. 

Foto: Aline Pazin

A primeira orquestra de Bertioga foi a da Fundação 10 de Agosto, criada em 1996, na Riviera de São Lourenço. Atualmente, a entidade mantém 329 alunos nos cursos de pré-musicalização I e II, musicalização  I, II e III, teoria musical iniciante, intermediário e avançado, violino, viola, violoncelo, clarinete, saxofone, percussão, violão, flauta transversal, canto coral, teclado, orquestra A e orquestra B. Os cursos têm duração de três anos, e atendem crianças, jovens e adolescentes de cinco a 18 anos. 

O maestro Joel Gonzaga, das orquestras Fundação 10 de Agosto e Acica, é otimista: “Daqui há uns  dois anos, Bertioga terá uma boa representatividade no cenário musical. Temos cinco orquestras na cidade, e o objetivo é a união dos músicos em torno de uma filarmônica”. 

Foto: Aline Pazin

A Associação Civil Cidadania Brasil (ACCB), entidade prestadora de serviços para a prefeitura, mantém cursos de música no Centro Cultural, na Praia da Enseada, e no Espaço Cidadão, em Boraceia. Ao todo, são 365 alunos, distribuídos em aulas dos mais diversos instrumentos e das mais variadas idades. A orquestra é formada por 40 membros dos dois polos. O coordenador dos cursos e maestro Moises Inácio diz: “A música está bem forte na cidade. As crianças precisam disso, de música gratuita ao alcance. Elas vão encontrar a cidadania por meio desse movimento”. 

O maestro Willians Costa Paulinio é responsável por dois grupos em Boraceia: o polo de música da ACCB e a Orquestra Nipo-Brasileira, da igreja Assembleia de Deus, com um total de 57 alunos. Ele diz que os dois grupos se completam, assim como acontece em toda a cidade. 

Willians ressalta o primeiro trabalho de música em bairro distante do centro, semeado pela ONG Boraceia Viva, e que hoje mantém aulas de violão e violino para 45 crianças.Admirador desta arte, ele diz que a música vai além da função de tirar as crianças da ociosidade. “Ela mostra um novo caminho e a possibilidade de uma profissão ligada à divulgação da música clássica. Hoje, eu sustento minha família com a música. O papel do músico é muito importante na sociedade, e é possível viver da música de diversas maneiras”.

Foto: Aline Pazin

Aulas de iniciação musical, coral,instrumentos de corda e sopro, estão disponíveis ao aprendizado de crianças, jovens, adultos e idosos em vários cantos da cidade, seja em espaços cedidos por igrejas, ou em salas alugadas, prédios públicos ou sede própria. 

No Jardim Rio da Praia, visitamos as instalações da ONG Onda Sonora, entidade criada em 2007, onde há aulas de iniciação musical para crianças a partir de cinco anos, e um coral, com 25 integrantes, já consagrado na cidade. Sua mais recente apresentação foi na Argentina, durante o 2º Festival Internacional de Corais Três Fronteiras (Brasil, Paraguai e Argentina), dias 17, 18 e 19 deste mês. O casal Cristina Rodrigues e Jorge Raimundo, fundadores da entidade, defende a música como instrumento de formação de cidadãos. “O gosto pela música, a concentração. Tudo isso ajuda na escola e na vida”, diz Jorge. 

Foto: Aline Pazin
Foto: Aline Pazin

Não são apenas crianças, adolescentes e jovens no cenário musical da cidade. No curso de violão da ACCB, encontramos três representantes da terceira idade. Na arejada sala fronteiriça ao mar, Geraldo Neves, 63 anos, Salvador Lopes, 82, e Miguel Aleni, 83, realizam uma das melhores terapias, o tocar e cantar. 

Depois dos acordes de AlineEstou aqui, de João Mineiro e Marciano, eles falam sobre esse prazer. “Tocar é a realização de um sonho. Hoje eu posso fazer o que gosto, aprender a tocar e cantar. Nada melhor para se distrair e participar de uma roda de amigos”, afirma Geraldo Neves. Miguel Aleni diz: “O gosto  pela música me trouxe até aqui. É um momento de muita alegria, felicidade e entretenimento. Quando estou aqui, me esqueço dos problemas. Tudo de bom nessa vida”. Salvador Lopes não é de muitas palavras, apenas sorri e acena com a cabeça, em sinal de que concorda com os efeitos da música sobre o ser humano. Como disse Miguel de Cervantes Saavedra (autor de Dom Quixote): “Onde há música, não pode haver coisa má”.  


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