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Estes foram os requisitos básicos adotados por Pérsio Dias e um grupo de abnegados, para a conquista da emancipação, afinal obtida em 1991.

 O paulistano Pérsio Dias trouxe para Bertioga o resultado de um aprendizado de 28 anos de Brás, enclave italiano da capital: o macarrão feito em casa. Descendente da boa mistura entre italiano e português, Pérsio aprendeu com eles a fazer a típica massa e, até hoje, a faz para a família e ainda ensina para quem quiser aprender.

Foto: JCN

 Em São Paulo foi radialista, mas a necessidade de um emprego estável o trouxe para trabalhar no Sesc Bertioga, em 1971, então com 28 anos. Chegou com a mulher Neomara Maria Dias Pinto e o primeiro filho a caminho. Na colônia de férias permaneceu até 1978. 

Na Vila, construiu sua casa em um terreno comprado por seu pai. Neomara, que vendia roupas, abriu uma loja, enquanto Pérsio vendia lataria de automóvel em Santos, para complementar a renda. Entrou no processo de emancipação de forma inusitada, quando foi convidado pelo presidente da Associação Comercial do Vale do Parnaíba, para um almoço. “Ele entrou na minha loja e me convidou simplesmente para eu almoçar com ele e o governador. Meio incrédulo, fui a São Paulo e ele me levou até o palácio do governo,  com o Paulo Maluf (o então governador), e entregou uma carta com o pedido de emancipação de Bertioga e a elevação de Santo Antônio do Pinhal, no Vale do Parnaíba”.

Foto: Arquivo familiar

 A partir daí, acendeu-se uma chama de liberdade e Pérsio não parou mais de frequentar o cenário político. Em outro almoço, a convite de Rubens Pusset, então secretário de Obras de São Caetano do Sul, viu nascer a Associação Pró- autonomia de Emancipação de Bertioga, em 1985. Diz ele: “A composição ficou definida assim: presidente, Licurgo Mazzoni; vices-presidentes Antonio Duarte (o Santista), Gentil e Gerônimo Lobato; secretária, Eunice Lobato; segunda secretária, Irene Vieira; eu, como primeiro tesoureiro; e Abelardo Araújo Barros, como segundo tesoureiro”. 

Foto: Arquivo familiar

Em 1987, foi fundada a Frente Distrital Paulista de Emancipação, que agregava os distritos do estado de São Paulo que queriam a emancipação.

Pérsio conta que: “Em 1989, 10 distritos foram emancipados, de um total de mais de 20, que ficaram de fora porque tinha saído a nova Constituição de 1988, mas não tinha lei complementar estadual que regulamentasse a lei federal, uma exigência da Carta federal. Por isso, fomos impedidos”.

Eleito presidente da Frente Distrital Paulista de Emancipação, o órgão partiu para a briga pela lei complementar que permitisse o plebiscito. Pérsio explica: “No entanto, a cidade de Santos tinha feito uma lei irregular; os emancipadores haviam lutado por uma lei complementar na qual pediam que todo distrito com pedido de emancipação em andamento tivesse suas divisas preservadas por cinco anos. Santos mudou as divisas de Bertioga, na época da então prefeita Telma de Souza, para os limites do rio Itapanhaú, e, assim, Bertioga perderia mais de 200 quilômetros quadrados”. Na ocasião, a cidade santista havia convencido Aristides Junqueira, procurador geral da República, a fazer uma contestação dizendo que o projeto dos emancipadores era inconstitucional.

 Mas, o processo seguiu para o Supremo Tribunal Federal. “Isso nos deixou preocupados, já que o processo estava rodando no STF, e sabíamos que o relator o considerava inconstitucional. Fui então a São Paulo falar com o deputado, autor da lei, e ele me sugeriu ir a Brasília, onde existe uma subsecretaria do estado de São Paulo. Assim, consegui conversar com todos os desembargadores e relatei o caso do equívoco que Santos estava pregando”.

Foto: Arquivo familiar

 No dia 9 de maio de 1991, ocorreu o julgamento da liminar, e se fosse votada inconstitucional, Bertioga não faria o plebiscito.  Pérsio conta que o ministro Marco Aurélio Melo foi o segundo a ser chamado e virou a mesa. “Lembro-me perfeitamente de suas palavras: `Com todo o respeito data vênia, meu querido ministro Veloso, quem somos nós para dizer que é inconstitucional uma lei votada pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo - que tem uma comissão de constituição e justiça com 84 deputados no maior estado da nossa federação? Não tenho nada contra´. Ele foi acompanhado pelos outros ministros, e conseguimos o plebiscito para o dia 19 de maio”.

 Antes disso, havia um temor entre os comerciantes de Bertioga sobre as questões da emancipação. Segundo Pérsio, Santos boicotava quem quer que fosse, se soubesse de seu envolvimento. “Sofri muitos problemas por causa disso. Fui atacado pela Vigilância Sanitária de Santos, quando tinha uma sorveteria. Certa vez, havia feito os sorvetes, e eles vieram aqui e disseram que estava tudo estragado, jogando toda a produção do final de semana no lixo. Outro que também passou por problemas foi o Santista, membro da comissão. Os políticos de Santos ameaçavam, dizendo que iriam fechar a serralheria dele. Éramos muito humildes. Quem éramos nós perante Santos?”. 

 No entanto, os governantes da época subestimaram a atuação dos bertioguenses. “Quando houve a inauguração do terminal  turístico de Bertioga, no Sesc, o governador Quércia e o prefeito de Santos Oswaldo Justo, estavam no palanque e nós - eu, o Santista, a Eunice e o Renatinho [Renato Faustino] - abrimos uma faixa em meio à multidão, com os dizeres: EMANCIPAÇÃO JÁ. A população, temerosa, abriu uma roda e o Justo falou para o governador: `Olha governador, veja quem quer fazer a emancipação de Bertioga. Tem quatro gatos pingados´”. 

O advogado Miguel Bichir fez uma defesa no Tribunal Regional Eleitoral, porque a lei dizia que quem deveria se interessar pelo plebiscito era a população diretamente interessada. Um juiz federal, Américo Lacombi, do TRE, entendeu que as populações diretamente interessadas seriam o distrito e a sede. 

Nova briga. “Os emancipadores foram conversar com os desembargadores, ministros e juízes e, por meio de um parecer do juiz Alceu Penteado Navarro, o Miguel fez a defesa. Ao mesmo tempo, Dias - amigo do repórter Newton Flora, da Bandeirantes, cobria as notícias do TRF e forçou o Américo Lacombi a dar o parecer favorável, corrigindo o texto, no qual a participação para o plebiscito envolveria a população do distrito e não as populações”. Bertioga foi emancipada em 1991.

 Pércio Dias sente orgulho de ter feito parte de um momento histórico tão importante. “Fui o primeiro a assinar a lista a favor da emancipação, minha mulher foi a segunda”, lembra. Aposentado há seis anos, ele diz que sente falta de toda a agitação que enfrentou em sua vida, tanto nos negócios quanto na política emancipacionista.


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