As muitas Carmens, todas queridas - Sistema Costa Norte de ComunicaçãoBertioga-Especial | Sistema Costa Norte de Comunicação
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Carmen, Carmosa, Carmelita. Os apelidos carinhosos lhe foram dados pela família Ermírio de Moraes e valem até hoje, aos 86 anos.

 Maria do Carmo Quirino dos Santos, antiga governanta da família Ermírio de Moraes, recorda-se das mais de seis décadas trabalhadas no sítio da família, no qual morou, casou-se e teve seus 12 filhos. Nascida no bairro Indaiá, ela conta que seu avô materno era índio; sua mãe nasceu no Indaiá e, seu pai, em Itaguaré. Carmosa, apelido carinhoso dado por Regininha - filha do casal Regina e José Ermírio de Moraes - ou Carmelita, como era chamava pelo outro filho do casal, orgulha-se de ter formado todos de sua família e ainda ser considerada membro da família Moraes. 

Foto: JCN

Nascida e criada em uma família de pescadores, Carmen - que completa 86 anos no dia 16 de julho - remonta a sua história ao lado do filho mais velho Lourival Gonçalves dos Santos, o Zico. “Tenho orgulho de dizer que nasci numa casa de barro; quando chovia, o mar avançava para dentro de casa”, lembra ele. 

Assim como Carmen, todos os seus irmãos estudaram na Escola Estadual Archimedes Bava, construída por José Ermírio de Moraes, até a quarta série, no Indaiá. Trabalhavam na roça e dela tiravam o sustento para a família, além da produção de farinha de mandioca. O café da manhã, muitas vezes, era feito no fogão à lenha, à base de farinha de mandioca, tradição que seguiu com os filhos de Carmen. Os peixes capturados, algumas vezes, eram vendidos, tão farta a pesca nesta época. Para estocá-los, a família secava com sal, pois não havia geladeira.

Foto: Arquivo familiar

 Hoje, com sete filhos vivos, Carmen mora em uma casa simples e aconchegante, um mimo oferecido pela sua ex-patroa e amiga dona Regina, cujos filhos foram criados junto com os de Carmen. Uma das lembranças de sua filha mais nova, Márcia, é que ela e Antonio Ermírio jogavam tênis. “Aprendi com ele e ninguém me superava”.

 Dentre tantas lembranças, Zico e Carmen contam como o Indaiá foi batizado com este nome. A origem vem da espécie de coco plantada na fazenda do poeta Vicente de Carvalho, mais tarde adquirida pela família Ermírio de Moraes. “Meu pai chegou a trabalhar com Vicente de Carvalho. Depois, quando o Dr. José Ermírio de Moraes, pai de Antônio Ermírio, comprou a propriedade, havia uma casa de madeira; posteriormente, construíram outra de alvenaria com quatro quartos para passar final de semana e, mais tarde, a atual, bem maior”, revive Carmen, que morava em frente ao sítio antes de trabalhar na propriedade. A casa de alvenaria da nova propriedade foi construída com muito sacrifício pela família, uma vez que, naquela época, não havia meio de transporte adequado. O material chegava por balsa.

Como tudo começou 

A trajetória de Carmen teve início na época em que trabalhava em Santos, na casa de uma professora do Indaiá. Com 18 anos, Carmen voltou para a casa da mãe, e um cunhado seu trabalhava na propriedade de José Ermírio de Moraes; foi ele quem a apresentou à família, para trabalhar lá durante a temporada. Aos 20 anos, ela se casou, e o marido Gonçalves Laurino dos Santos trabalhou na construção da nova casa. Logo depois nasceu Zico, e Carmen continuou a trabalhar lá. Carmen e Antônio Ermírio eram da mesma idade, e da convivência surgiu uma amizade duradoura. Em 1956, Carmen foi morar definitivamente dentro da propriedade da família Moraes, na qual viveu 64 anos. Mesmo depois de aposentada, continuou trabalhando para eles. Zico lembra: “Estudei o primário aqui e, com 11 anos de idade, ganhei uma bolsa custeada pela família para cursar o ginásio em Santos, mas regressava todos os finais de semana. Fiz o científico e o cursinho em Santos e, em seguida, estudei engenharia. A partir da adolescência, fiz amizade com os filhos do Dr. Antônio Ermírio de Moraes. A vivência foi muito grande, como irmãos, principalmente com os mais velhos”.

Foto: Arquivo familiar

 Dona Regina sempre dizia que Carmen fazia parte da família, uma relação que a emociona até hoje. Ela conta que, inclusive, foi citada no livro de Antônio Ermírio. “Leio e releio o livro dele e sinto muito a sua falta, um grande homem, um amigo”, rememora. Lúcida, disposta e muito forte, Carmen sorri quando se lembra do alento de contar com a patroa e amiga dona Regina que, em janeiro último, esteve no sítio, ocasião em que a convidou para ir até lá. “Não para trabalhar, mas para bater-papo, fazer companhia”. 

Carmen alegra-se com as facilidades que encontra hoje na região, principalmente, na saúde e meio de transporte. No início, enfrentou, assim como os primeiros moradores de Bertioga, grandes provações como levar o filho mais velho ao médico quando tinha crises de bronquite. Não havia pronto-socorro, as opções eram a farmácia de dona Anésia, ou duas horas de barco para chegar até o hospital, em Santos.  

Zico, funcionário da prefeitura de Bertioga, comemora: “A emancipação trouxe mais progresso. Hoje temos legislação própria, temos um plano diretor da cidade. Até pouco  tempo atrás, não eram todas as cidades que tinham plano diretor e Bertioga teve o seu primeiro prefeito em 1993. Por isso, é um município bastante novo, apesar de sua história começar bem antes. Hoje temos hospital, rodovias, a avenida Anchieta...”.

 Emocionada por ter sido agraciada durante toda a sua vida pela família Ermírio de Moraes, Carmen lembra a perda do marido num acidente, quando ele tinha 38 anos. Atualmente, sua família é composta por sete filhos, oito netos e três bisnetos. Um dos irmãos de Zico, Valter, foi o sucessor de Carmen no cuidar da família e da propriedade, no Indaiá. Hoje, ele e sua mulher moram lá e são responsáveis por tudo.  


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