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Aos 93 anos, dona Terezinha da Farmácia, como é conhecida, recorda-se de sua atuação em Bertioga, notadamente na área da saúde.

Uma figura pública que, mesmo detrás de um balcão, atuou em muitas batalhas pela vida e pelo desenvolvimento humano dos moradores do antigo vilarejo de Santos. Eis uma síntese da vida de Terezia Vari, mais  conhecida por dona Terezinha da Farmácia. Aos 93 anos, ela pautou sua vida em torno de uma grande paixão: atender o público. E foi em uma das áreas mais carentes da Bertioga de então, a da saúde, que ela exerceu sua vocação, a de ouvir, aconselhar, orientar, prescrever.

Foto: Arquivo familiar

 Ela entrou em cena na década de 1970. De personalidade forte, sempre muito ativa, dona Terezinha morava em São Paulo, cuidava de duas filhas ainda pequenas e trabalhava como manicure e pedicure. Certa vez, veio passear com uma amiga em Bertioga, em meados dos anos 1960, mas só adotou o vilarejo como residência em 1972, depois da morte de uma das filhas. Neste intervalo de tempo, morou nos Estados Unidos com a filha mais velha, onde estudou farmácia. 

Foto: JCN

Quando resolveu se fixar em Bertioga, iniciou sua jornada empreendedora e humanitária na farmácia de uma família amiga; o dono do estabelecimento adoeceu e ela comprou o ponto. “Tudo era muito difícil naquela época”, diz ela, referindo-se ao sistema de abastecimento de remédios para a farmácia, adquiridos em Santos. Segundo conta, eram necessários cinco dias para tal: os funcionários levavam as encomendas, por meio de receitas, às sextas-feiras, e voltavam para pegar a remessa só às terças-feiras. “A logística era feita através da balsa”, lembra. Diante dos obstáculos e da complexidade para repor os remédios, atrás da farmácia tinha um depósito com prateleiras até o teto, para estocar os produtos que não necessitavam de receitas médicas.

 Mais tarde, abriu outra farmácia, na avenida Anchieta, a atual Droga Love. Além destes dois endereços, Terezinha também montou um posto na usina de Itatinga, aonde os medicamentos chegavam pelo bondinho. Outros dois postos atendiam, um no bairro Indaiá, outro, no Sesc. Assim seguiu até o final dos anos 1980, quando vendeu a rede de farmácias.

 Incansável, dona Terezinha atendia as pessoas até mesmo quando a procuravam em sua casa, durante a madrugada. Ela saía de penhoar, subia nos caminhões e levava as pessoas necessitadas até a farmácia para atendê-las. Diante das dificuldades financeiras da população, a maioria constituída por pescadores, muitas vezes, o pagamento era feito com peixes, galinhas, doces e frutas. Ela conta: “Os que não podiam pagar, eu anotava num caderninho que guardei; mesmo depois de eu vender as farmácias ainda veio muita gente acertar o que estava anotado em minha caderneta”.

Foto: Arquivo familiar

 Daquela época, ela sente muitas saudades e carinho pelos dez funcionários, meninos que cresceram com as farmácias. “Um deles, inclusive, paguei os estudos, o Renatinho [Renato Faustino], hoje dono do supermercado Albatroz, e que, naquele tempo, era gerente de uma das farmácias”.

 Estradas de terra, grandes distâncias, poucos recursos e falta de esclarecimento eram obstáculos comuns enfrentados pelos moradores. Outra dificuldade era a precariedade do atendimento do posto de saúde. “No pronto- socorro, a rotatividade de profissionais era grande, e a única especialidade era em tuberculose, porque um médico mais velho morava na Vila e era especializado nessa doença”, relata.  

Por todas estas dificuldades, Terezinha era chamada de “doutora”. Dava conselhos e orientações não só para enfermos, como também às mulheres em geral, sobre como amamentar, horários das mamadas, tipo de alimentação adequada. “Muitas daquelas crianças tornaram-se adultos, casaram-se e cuidei dos filhos deles também”, alegra-se.

Terezinha sempre foi dotada de grande bom senso. Quando não podia ajudar, principalmente em casos de acidentes graves,  ela mesma seguia para outro hospital, fora de Bertioga, em seu carro. Seu neto, Luiz, hoje com  

 37 anos, lembra que ela tinha um sistema de comunicação eficaz para casos de emergências, quando acionava um rádio com contato direto com o pessoal da balsa.

Foto: Arquivo familiar

 Sua popularidade chegou até mesmo a pessoas de fora da cidade, principalmente, em época de temporada. Ela conta que muitas idosas vão a sua casa para consultar sobre um medicamento ou alguma enfermidade. “Alguns chegam aqui e perguntam qual a indicação  de um comprimidinho ou têm vergonha de contar algo que estão passando e perguntam. Até pessoas desconhecidas batiam na minha porta, principalmente no verão, com doenças de verão”.

 Versátil, dona Terezinha desempenhou outros papéis importantes em Bertioga. Atuou na distribuição de medicamentos no posto da prefeitura - a convite do então prefeito Luiz Carlos Rachid, ao longo de toda a sua gestão, de 1997 a 2000 -, e foi coordenadora da Associação de Pais e Mestres da Escola Estadual Armando Belegardi. Sempre com sua característica mais forte: servir e ouvir o público.

 Ela não pertenceu a partido político algum, todavia, reunia em sua casa os principais políticos da cidade. O primeiro plano diretor foi constituído em sua sala. Sua primeira participação política efetiva na cidade ocorreu quando se candidatou a vice-prefeita da  cidade, ao lado de Pércio Dias Pinto, então candidato a  prefeito, em 1992.  


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