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Escolhido como local adequado para ser o marco zero do município, o Forte São João, cuja construção foi determinada por Martim Afonso de Souza, no distante ano de 1531, com a finalidade de proteger a entrada da barra do canal de Bertioga, foi responsável pelo início do povoamento do atual município. Foram anos de batalhas e histórias nestas terras até a chegada do século XX. Em 1930, Bertioga conquistou sua condição de Distrito de Paz e, em 1944, passou a ser subprefeitura de Santos, por decreto do então interventor federal no estado de São Paulo, Ademar de Barros. A antiga vila histórica, o atual bairro Centro, é o núcleo mais antigo da cidade, no qual se concentram os principais equipamentos urbanos do município, e onde moram famílias tradicionais, chegadas aqui há décadas.

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O médico bertioguense Aloísio Bichir, 62 anos, descende da mistura de libanês, seu avô Miguel Bichir, e uma caiçara de Boiçucanga, Isabel, uma das primeira famílias a habitar a região próxima ao Forte, com uma história de ocupação de quase cem anos. “A gente cresceu aprendendo a nadar; ou nadava ou morria afogado brincando de pega-pega na água, na antiga ponte de madeira onde atracavam as lanchas de navegação da Santense”. As lanchas da Cia. Santense eram o transporte coletivo da época. “Eram duas horas e meia de viagem, entre voltas e meandros pelo canal; íamos até Santos, para comprar roupa, fazer consulta médica, ou mesmo passear”, lembra Aloísio.

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A água, seja do canal, dos rios ou do mar, era quem ditava o ritmo de vida da época. Bichir lembra: “Todas as famílias tinham suas canoas, pescavam desde sempre. Meu pai pescava com cerco de fundo, depois, a partir da década de 1950, começou a pescar tainha em Itaguaré. Era um mundo sem violência, as famílias se conheciam por nome. Depois tudo foi mudando, por força da migração, do poderio econômico, da invasão das terras, da especulação imobiliária. No final dos anos 1960, começo de 1970, os caiçaras começaram a vender todas as suas propriedades a troco de banana”.

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Sobre a Bertioga de hoje ele diz “Cada um tem a sua percepção, a gente não pode ficar com aquela visão idílica, de que tudo seria imutável, que Bertioga não mudaria jamais. Mas ela poderia mudar de uma forma organizada; a gente ainda vê Bertioga muito atrasada, teríamos que avançar um pouco mais na estrutura de serviços, na área de limpeza pública, de urbanização, de coleta e tratamento de esgoto; é preciso ter água para todo mundo e habitação de qualidade, porque Bertioga não é só para o caiçara, é também para aqueles que vieram para cá, que empreenderam e estão criando suas famílias aqui. A gente recebe bem a todos, mas nós temos que avançar. Aluísio considera Bertioga um lugar ainda bom para se morar, e quanto à pesca revela: “Eu continuo pescando; tenho duas canoas. Só mudei o lugar da pescaria, agora, para Itaguaré”.

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De Portugal, veio outra família com tradição no Centro. Maria Felicidade Guerreiro da Conceição chegou a Bertioga em 1963, e lá  mantém um dos pontos comerciais mais antigos da cidade, a atual loja Planet P, antigo Bazar Felicidade. “Quando cheguei aqui não tinha nem luz. Eu estranhei bastante,mas fui bem recebida por todos. O que mais me marcou foi o acolhimento das pessoas, que me receberam com muito carinho”, disse Felicidade. Para ela, a hospitalidade do povo bertioguense ainda é uma de suas maiores riquezas, mesmo com todo o desenvolvimento. “Bertioga ainda é assim, acolhedora, mas hoje em dia, para se viver aqui, está mais difícil, a gente tem medo de andar na cidade. Antigamente, eu andava por aí tudo até onze horas, meia-noite. Agora tenho receio de ir até a loja”, lamenta.

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Orestes Amparo Filho, o Ted, nasceu em Bertioga há 58 anos. Seu avô chegou nestas terras em 1912, e se dedicou à plantação de banana, na área hoje conhecida como antigo Jardim Veleiros. “Isso aqui tudo era bananal, até o mangue. As frutas eram exportadas para a Argentina. Depois, mais ou menos nos anos 1950, com o declínio do ciclo da banana, ele e meu pai, que nasceu em 1927, começaram a trabalhar com o peixe seco, não havia gelo, não havia estrada, não havia caminhões, então se pescava o peixe, secava e levava de barco para vender em Santos. Era isso que movimentava a economia da época. A partir dos anos 1970 começou a ter gelo, estradinhas e aí teve início outra realidade”.

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Ted é comerciante no ramo de marinas e vê no turismo a única opção viável para a Bertioga de hoje. Ele disse: “O futuro de Bertioga é o turismo ou o turismo, não tem outro caminho”. Ressaltou que o município tem características muito peculiares que favorecem o seu potencial. “Ela está só a 100 km da capital, tem uma natureza maravilhosa, duas estradas boas e a ligação seca entre Guarujá e Santos vai representar um grande futuro para Bertioga”. Mas, nesse aspecto, faz um alerta: “Os turistas, com o passar do tempo, ficaram muito exigentes, então a cidade precisa melhorar em segurança, atendimento e infraestrutura de serviços”.

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Ele se mostra feliz por viver e trabalhar no lugar onde nasceu. “Todos os dias eu ajoelho e agradeço ao bondoso Deus pela possibilidade de viver num lugar como esse e desenvolver o trabalho que eu desenvolvo; eu me considero privilegiadíssimo.

Já viajei para muitos lugares e por todo o mundo. Mas não existe nada como Bertioga. “Para eu ir à padaria comprar um pãozinho, levo duas horas; encontro amigos e, em cada encontro, é uma conversa. Não tem isso em outro lugar do mundo; não tem nada que pague.”


Novo rumo

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Sobre a mudança do atracadouro da balsa, que, de certa forma, amplia o desenvolvimento de Bertioga no sentido contrário ao Forte, Ted se diz satisfeito com a nova movimentação na avenida Henrique Costábile (antiga avenida dos Coqueiros). “Isso vai despertar o Jardim Veleiros, porque as pessoas começam a frequentar e vai haver o desenvolvimento da região, porque, por onde passam pessoas as coisas acontecem naturalmente. No meu comércio já sinto o reflexo positivo com aumento de vendas, tanto na loja, quanto no restaurante”, comemora.

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Quem também está feliz e já se prepara para abrir um comércio na via é Heraclito dos Santos Medeiros, que foi candidato a prefeito na primeira eleição de Bertioga. “A cidade está bem desenvolvida, e agora este trecho vai melhorar muito. Daqui mais uns 60 dias vou abrir o meu comércio, a Cantina do Canal”, afirmou.

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A mudança, no entanto, não é motivo de alegria para Valdemar Batista, 70 anos, proprietário do restaurante Faninho, um comércio com 60 anos de história, herdado de seu pai, localizado na avenida Vicente de Carvalho, de frente para o canal e a poucos metros do antigo atracadouro. Entristecido e com certo ar de desolação, ele disse: “A saída da balsa foi ruim, levou o movimento para o outro lado. Na verdade, este lado de Bertioga começou a parar depois da abertura da Anchieta. Ela perturbou o centro, o movimento antes era todo por aqui. A gente sente, mas a cidade precisa crescer e é assim mesmo”. Ele elogiou a nova urbanização da avenida Vicente de Carvalho e do calçadão da orla, mas acha que precisa de muito mais. “O calçadão ficou bonito, mas não tem ninguém, tudo parado. Tem que se fazer alguma coisa, senão, o jeito é fechar as portas. A situação financeira está ruim”.


Prepare-se para a Zarpada

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Uma importante página da colonização nacional foi escrita em solo bertioguense. Foi daqui que, em 27 de janeiro de 1565, segundo contam os historiadores, Estácio de Sá partiu para o episódio da defesa da baia de Guanabara, o que resultou, também, na fundação da cidade do Rio de Janeiro, a primeira capital do Brasil. Conta a história que naquela manhã, expedicionários paulistas, santistas, vicentinos e índios partiram para a luta, após uma missa campal rezada por Manoel da Nóbrega, junto ao Forte São João.

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Para comemorar os 450 anos dessa aventura histórica, José Carlos Vasquez Rodrigues, que foi diretor de turismo da prefeitura de Bertioga, no final da década de 90, agora morador na cidade do Rio de Janeiro, trabalha na elaboração de um ambicioso projeto, a Zarpada, prevista para ocorrer em 27 de fevereiro do próximo ano, com o intuito de reproduzir a partida de Nóbrega de Bertioga por meio de uma grandiosa encenação, com apoio da iniciativa privada. Segundo Vasquez, o projeto já conta com o interesse do governo da cidade do Rio de Janeiro e, agora, ele aguarda uma posição da prefeitura de Bertioga, para dar sequência aos trabalhos. Rodriguez explica que “o objetivo é fazer a encenação histórica, com uma linguagem turística”.

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