Jardim Vicente de Carvalho - Sistema Costa Norte de ComunicaçãoBertioga-Especial | Sistema Costa Norte de Comunicação
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O bairro Jardim Vicente de Carvalho transforma-se a olhos vistos e firma-se como uma referência de área comercial da cidade, com várias lojas que vendem de produtos de R$ 1,99 a artigos para a prática de esportes radicais. O projeto de reurbanização é mais uma mudança aguardada pelos seus moradores e usuários para que o bairro ganhe nova roupagem.


Uma das lojas de maior destaque fica no final da primeira quadra da rua Engenheiro José Sanches Ferrari. A cabeça de boi na fachada do comércio deixa clara sua identidade, mas pode surpreender no seu interior. É como colocar os pés em um pedacinho das regiões Norte e Nordeste do país. Os sentidos são invadidos pela mescla dos aromas de carnes de sabor forte, grãos, farinhas, pimentas e condimentos utilizados na culinária típica regional. Mas há outros verdadeiros achados, como artesanatos, a exemplo do berimbau e da namoradeira.

Foto: Mayumi Kitamura


Esta Casa do Norte surgiu em meados de 2006, mas seu trajeto começou muito antes, no Indaiá, com o nordestino Eliseu, conhecido como Gordinho do Alho. “Aqui tem muita procura, principalmente o tempero os baianos gostam muito, mas o movimento vem da cidade toda e até de fora. Tem gente de Santo Amaro (SP) que vem buscar tempero aqui”, conta Marlene Pereira de Souza, sua mulher, que acompanhou de perto o desenvolvimento comercial do bairro.


“Vicente de Carvalho cresceu muito, tinha pouco comércio e, agora, está aumentando bastante; cada vez mais as pessoas procuram lojinhas para alugar- apesar do valor aqui estar muito caro, R$ 500, R$ 600 por qualquer portinha. As pessoas não têm noção. Eu acho um absurdo”, criticou a rondoniense apaixonada por Bertioga.

Foto: Mayumi Kitamura


Forte é uma característica que define os produtos gastronômicos comercializados na Casa do Norte, mas também é um atributo de seus moradores, que, constantemente, batalham por condições melhores de vida. Neste aspecto, o projeto de reurbanização do bairro, a cargo da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), promete atender a comunidade e construir não apenas imóveis que ofereçam segurança e conforto, mas instalar equipamentos urbanos e sociais no bairro.


Estas conquistas são muito aguardadas pelos moradores locais, que veem, neste projeto, um grande passo para o desenvolvimento da comunidade, a exemplo de duas mulheres que aplicam seus conhecimentos no próprio bairro, na capacitação de moradores. Coincidentemente, ambas carregam o mesmo nome e apelido: Maria Aparecida, ou Cida, como são popularmente conhecidas.

Foto: Shin Shikuma


A manicure Maria Aparecida Matos dos Santos morava de aluguel em Guarujá e viu em Bertioga uma oportunidade de melhorar sua vida. “Além de a gente pagar um valor mínimo, eu tive condições para dar um lar para meu filho”, disse Cida. Mesmo com seu próprio imóvel, as lutas continuaram e, nos primeiros quatro anos, Cida passou sem energia elétrica em sua casa assim como os demais residentes do bairro ainda em formação. As conquistas eram coletivas e os vizinhos se ajudavam. “A gente fazia mutirão para ajudar um vizinho, isso era muito legal”, disse a manicure. Ao falar das primeiras casas entregues pela CDHU, integrantes do projeto de reurbanização do bairro, ela se emociona. “Presenciar a alegria das crianças de ver seu chão limpinho, a casa nova, ter seu quarto. Agora eles estão tendo qualidade de vida”, observou.


Cida mudou-se para Bertioga muito antes da emancipação e lembra da época em que sua irmã veio para a cidade, quando ainda não existia a Rio-Santos. “Então a gente vinha por uma trilha e tinha um lixão. Era uma sujeira só. Hoje, a gente vendo o bairro assim, é só maravilha”, recordou. 


Uma das histórias referentes ao desenvolvimento do bairro tornou-se uma lenda entre os moradores. Segundo Cida, o desleixo de um cuidador de porcos acarretou em sua morte e deixou muita gente receosa. “O homem que tomava conta dos porcos bebia muito e saiu para a farra sem dar a lavagem. Quando ele chegou bêbado pela manhã, foi pôr a lavagem dos porcos. Eles estavam morrendo de fome. Então ele escorregou e os porcos, que eram enormes, morderam todo seu corpo. Quando ele saiu na rua, eu pensei que fosse um filme de terror”. Depois desse episódio, as pessoas recomendavam cuidado na trilha, senão os porcos iriam atacar. Cida conta que um tempo depois desse período, ocorrido pouco tempo após sua mudança, as invasões de terra começaram no bairro, anteriormente ocupado por aproximadamente 180 famílias.

Foto: Mayumi Kitamura


Já sua amiga, a professora Maria Aparecida Ferreira Borges, mudou-se para o município por conta da violência de São Paulo. Há 20 anos ela morava em Itaquaquecetuba e pôde acompanhar o desenvolvimento do Jardim Vicente de Carvalho. “Eu sempre vinha acampar na Prainha [Prainha Branca]. Nas nossas férias,eu sempre trazia as crianças. Eles gostaram e fui me adaptando à cidade que estava crescendo”, contou. Para ela, este crescimento do bairro, principalmente populacional, assusta um pouco e apresenta novas e diferentes necessidades. “A população precisa de um pouco mais de educação”, comentou a professora, ao se referir aos constantes problemas com relação ao barulho e à falta de organização no descarte do lixo.


Juntas, a manicure e a professora participam de cursos para repassar seus conhecimentos à comunidade e integram a Sociedade Melhoramentos de Vicente de Carvalho II (SMVCII). Atualmente, a entidade busca sua regularização para que possa dar andamento a projetos. As duas Cidas anseiam, com o projeto de reurbanização, formar uma cooperativa dos moradores, por meio da associação. Um exemplo dos trabalhos que desenvolveram em parceria com outros residentes do bairro foram as árvores de Natal feitas com garrafas PET. “A gente [SMVCII] tentou abrir uma cooperativa de trabalhos que envolvia artesanato, costura e reciclagem”, contudo, o trabalho não teria dado certo devido a documentação, paralisando todo os trabalhos. A professora também conta que ambas são questionadas por outros moradores com relação ao projeto de reurbanização do bairro pela CDHU, que previa um galpão voltado à associação, mas, sem a documentação que regulamenta a entidade como pessoa jurídica, o futuro da estrutura é incerto.

Foto: Shin Shikuma


Independente do futuro da associação dos moradores, muitos dos que residem no local acreditam no bairro e não o trocam por uma moradia na capital, como o sergipano José Carlos Oliveira, de 59 anos. Em 2003, ao ficar desempregado, ele decidiu morar em Bertioga, após conhecer uma praia do município e descobrir um imóvel à venda no Jardim Vicente de Carvalho. Atualmente, ele vive da pesca e dos trabalhos que consegue como pedreiro; não tem nem um pouco de inveja de seus sete irmãos que moram na capital.“Mudei para cá para vir para um lugar mais sossegado. Lá você fica doido de andar de trem, calçado, vestindo calça. Aqui não compro roupa, só bermuda, ando de chinelo, não de sapato”, comentou.


Desde que mudou para o bairro, José acredita que houve 50% de melhora, com água, luz, pavimentação e a instalação do comércio. Para ele, a vida aqui é boa, principalmente porque vive sossegado. “É bom e dá para ganhar um dinheirinho na temporada vendendo peixe, trabalhar de pedreiro... e assim vai vivendo a vida”.


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