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O ano era 1974, quando o monsenhor Nelson de Paula foi nomeado, pelo bispo de Santos Dom David Picão, para ser pró-pároco da futura paróquia de São João Batista, no então subdistrito de Santos. Ele tomou posse no dia 16 de fevereiro ao celebrar uma missa na Colônia de Férias Ruy Fonseca - Sesc. No dia seguinte, um domingo, foi a vez de realizar uma missa na igreja de São João. Segundo consta no livro tombo da igreja, foi um momento de decepção, já que havia apenas “umas seis pessoas de Bertioga e umas quinze pessoas veranistas”, o que, para o monsenhor, foi uma “humilhação”. Mas ele não desanimou e seguiu sua missão no pequeno vilarejo, onde percorreu todas as capelas existentes (Indaiá, Guaratuba, Itatinga, São Lourenço e Sesc) e registrou alguns momentos vividos na história da comunidade.

Foto: JCN

Em suas escritas, ele cita os principais padres que passaram por aqui, em tempos idos, tais como os jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta. Lembra os carmelitas, de passagem para o Rio de Janeiro; e os franciscanos, com destino a São Sebastião e Ubatuba, entre tantos outros até sua chegada. Mas, o momento mais marcante para ele, naquele ano, foi o fechamento da empresa Pesca Nova, uma indústria de peixe enlatado que funcionava onde hoje é o paço municipal, região à época conhecida como Barreiros. Ele narra que “a comunidade de Bertioga foi duramente atingida com o fechamento da fábrica”, e que “o desemprego e a falta de pagamento causaram um grande mal-estar e os efeitos perduram”.

Foto: Eleni Nogueira

Tal fato motivou o padre a fazer um balanço da situação empregatícia da cidade naquele momento. Por meio de seus relatos, sabemos que a Cia. Docas de Santos, em Itatinga, empregava 100 funcionários; a Multipesca, outra companhia de peixe existente na cidade naquela época, 80 pessoas; a Palmares, antiga fábrica de palmito em conserva, mantinha 30 empregados; ele também cita o Sesc, com 300, e a subprefeitura, com 20. A esperança dos moradores do vilarejo, segundo conta, estava na possibilidade de aproveitamento de mão de obra local na “abertura e asfaltamento da rodovia Rio-Santos e com a instalação de indústrias ao longo da rodovia”.

Foto: JCN

 Por meio de sua análise, pode-se ter um perfil dos problemas sociais daquela época. O monsenhor fala de pobreza, de alcoolismo e de corrupção de menores, os dois últimos itens considerados por ele como “as duas grandes chagas morais de Bertioga”. Ele escreveu: “O alcoolismo é a ruína de famílias inteiras em Bertioga e ao longo das praias. Gera pobreza miséria e doença. Atinge mais os remanescentes de famílias de pescadores [...]. Menores se perdem à vista complacente de pais pobres,que veem na perdição da filha que sai de casa uma boca a menos para comer, pois as famílias em Bertioga ainda são numerosas entre os pobres [...]”. O monsenhor Paula desempenhou seu papel social junto a sua comunidade paroquial por um ano. Um religioso que gostava de escrever; em sua última escrita no livro tombo falou sobre a solidão que viveu em Bertioga.

Foto: JCN

Atualmente, o responsável pela Igreja Matriz de Bertioga é o padre Silvio Luiz, natural de Lençóis Paulista, interior de São Paulo. Hoje o município conta com três padres para atuar nas 18 comunidades paroquiais existentes, de Caiubura a Boraceia, e, segundo ele, o município tem um grande número de católicos. Dentre os trabalhos da igreja estão as pastorais sociais, grupos voluntários que percorrem os bairros fornecendo acompanhamento, ajuda e orientação à famílias carentes em questões ligadas às crianças, jovens, idosos e doentes. “O papel da igreja é fazer com que os católicos possam assumir o seu compromisso na sociedade. Assim, todo mundo se beneficia, sendo católico ou não”. Para ele, um dos bairros mais carentes da cidade é o Chácaras, no qual a pastoral da criança tem forte atuação.

Foto: Arquivo Jornal Presença Diocesana

Como mensagem para refletir por ocasião do aniversário da cidade, em 19 de maio, padre Silvio disse: “É preciso buscar algo que nos dê vontade de lutar pelo próximo. Que nos faça entender que o outro não é adversário; que o outro é o meu amigo, meu irmão. De amar o outro independentemente de quem seja, de cultura, ou religião, não importa. Se eu não tenho Deus no coração, se não tenho essa preocupação, que ensinamento vou ter no dia a dia? É preciso acreditar em um Deus que nos faz perceber que o outro está do meu lado e que juntos nós podemos fazer muito mais.”


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