O olhar de quem vivenciou a história - Sistema Costa Norte de ComunicaçãoBertioga-Especial | Sistema Costa Norte de Comunicação
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Antes da emancipação político-administrativa, em maio de 1991, Bertioga era um distrito de Santos, esquecido pelas autoridades. Saneamento, pavimentação e outras obras básicas não faziam parte da realidade local. A caçula da Baixada Santista só começou a se desenvolver depois de conquistar sua autonomia. Famílias que aqui viviam, participaram dos movimentos de emancipação, e acompanharam o lento, mas firme, desenvolvimento da cidade. 

A avenida mais importante de Bertioga, a 19 de Maio, data comemorativa da autonomia, chamava-se Enseada Três. Danilo Lerne Filho conta que a via era apenas uma picada pela qual as pessoas passavam. Ele é filho de um dos primeiros empreendedores do município, Danilo Lerne, técnico de terraplanagem que chegou a Bertioga em 1982, de posse de um contrato para abrir a famosa via. Na época não havia comércios nem casas; apenas uma empresa de distribuição de gás domiciliar.

A Bertioga de então não possuía grandes atrativos para os moradores. Poucas ruas eram asfaltadas e, em alguns casos, a passagem de carros dava-se pelas areias da praia. Ao trabalhar na ampliação da entrada da cidade Danilo Lerne se apaixonou pela cidade e, em sociedade com o irmão, abriu uma loja de materiais para construção e terraplanagem chamada Gonçalves e Lerne, na remota Enseada Três, entrada principal da cidade e um dos principais corredores comerciais. 

Quando chegou a Bertioga, aos 12 anos, Danilo enfrentava dificuldades para frequentar a escola, pois morava próximo da entrada da cidade e estudava na EE Armando Belegarde, no Jardim Lido. “Para chegar lá, eu tinha que andar por becos; a avenida Anchieta contemplava apenas o bairro próximo à balsa”. O empresário lembra que as obras básicas eram negligenciadas pela prefeitura de Santos, e só começaram a ser implantadas depois de a cidade se tornar independente. Hoje, com 44 anos, Danilo é dono da Academia Impactus, ao lado da loja da família, na qual trabalhou por mais de 16 anos com seu pai. “Não troco Bertioga por nada, sinceramente. Vi a cidade crescer, e acho que ela ainda tem muito a oferecer”, diz. 

A atual supervisora de Educação de Bertioga, Carla Ribeiro, chegou a Bertioga em 1983, quando a Riviera de São Lourenço estava sendo construída. Seu marido, o engenheiro civil Antonio Carlos Ribeiro, foi convidado para projetar o empreendimento de luxo. Eles moravam em Santa Rosa de Viterbo, no interior de São Paulo. Mesmo tendo uma vida estável na pequena cidade, o casal e mais um filho de um ano não hesitaram em mudar-se para o litoral paulista. 

A Riviera ainda era uma área desocupada, não havia escola, mercado ou hospital. O casal recebeu uma casa no bairro Jardim Indaiá, próxima ao trabalho de Carlos e, também, da escola onde Carla começou a dar aulas . “Eu adorava, ia a pé para o trabalho, andando pela praia, pois ainda não havia ruas no bairro. O único problema era quando a maré enchia;  os moradores tinham que aguardar, porque ficavam presos”, disse Carla. 

Em 1991, foi implantado o primeiro  colégio particular de Bertioga. Solicitado por pais de crianças da Riviera, o colégio Metodista implantou uma subsede no local, e Carla foi convidada para ser a primeira diretora. Ficou na direção até 2001, e voltou a dar aulas para crianças. Hoje, ela trabalha na Secretaria Municipal de Educação e Desenvolvimento Social. 

Um dos locais mais bonitos de Bertioga, o Sesc-Bertioga, no bairro Jardim Rio da Praia, já era um marco. Rosemaria da Silva Quaresma viveu a infância dentro de suas instalações. Seu pai, Manoel Messias da Silva, participou da construção do local em 1948, e possuía uma casa na primeira colônia de férias brasileira. “Tínhamos de tudo dentro da colônia, frequentávamos o cinema, meus irmãos jogavam futebol na escolinha e, às vezes, podíamos almoçar no restaurante de lá”, conta.

 Atualmente, Rosemaria, ou Rose, como gosta de ser chamada, é recepcionista no Laboratório Itapema e lembra-se, além dos momentos felizes, das dificuldades enfrentadas na infância, como a falta de ruas que dificultavam o acesso à escola. “Nós íamos do Sesc até o centro para estudar, em um caminhão que seguia pela praia”. A recepcionista atuou a vida toda na área da saúde. Técnica de enfermagem, Rose trabalhou por mais de 15 anos na recepção do pronto-socorro de Bertioga, que funcionava na avenida Vicente de Carvalho, em frente ao píer. “Trabalhei primeiro na farmácia Droga Love, uma das primeiras da cidade; lá aprendi a furar orelhas de bebês e crianças; faço isso até hoje”, afirmou. 

No pronto-socorro, Rose era querida por médicos e funcionários. Muitos vinham de Santos e, como passavam o dia aqui, a recepcionista os levava para almoçar em sua casa. “Já cheguei a lavar a roupa de alguns médicos e cuidar dos filhos deles; sempre fui muito prestativa”. Rose costuma dizer que tem ciúme de Bertioga. Não suporta ver pessoas jogando lixo no chão, ou vindo para cá e falando mal da cidade. Para ela, a cidade ainda tem muito a melhorar. Mas não trocaria o local em que nasceu por nada no mundo. 

Particularidades curiosas marcam o bairro de São Lourenço, a começar pela distribuição dos terrenos do local. Uma família com o sobrenome Pinto possui a maior parte dos terrenos do bairro, e controlou durante muito tempo quem entrava e saía da área. Manoel Batista Pinto, ou Maneco, tem 77 anos e é um dos pioneiros. “São Lourenço surgiu a partir de uma dívida. Uma tia de meu avô possuía terras que iam de partes do centro até Guaratuba. Ela começou a perder terras e ficou devendo um valor muito alto ao meu avô. Para suprir essa dívida, ela pediu que meu avô escolhesse alguma terra dela. Ele escolheu São Lourenço e povoou o local”, explicou Maneco. 

Outro descendente, Victor Batista Pinto, dá outros detalhes sobre essa história: “Meu avô, Manoel José Pinto, era filho de  uma escrava, mas foi criado pela madrasta. Quando seu bisavô morreu, deixou, em testamento, dois mil contos de réis para o neto. Mas a madrasta tinha gastado tudo, e ficou devendo esse dinheiro para o enteado. Para quitar a dívida, ele se apossou das terras de São Lourenço e ali formou sua família.” 

O bairro se desenvolveu muito rápido e, em 1936, instalou-se a terceira escola de Bertioga na casa de Maneco que, na época, era a única a possuir água encanada e banheiros. A Escola Mista Rural da Praia de São Lourenço atendia crianças do então primeiro ao terceiro ano do primário. Após concluir o terceiro ano, as crianças tinham que estudar no Indaiá, para onde seguiam também pela areia da praia. Em São Lourenço instalou-se a única indústria de cachaça da cidade. Ficava próxima à praia de Itaguaré, e foi fundada, também, pelo avô de Maneco. Hoje, a família Pinto conta com cerca de 300 pessoas residentes no bairro, e aproximadamente 60 herdeiros de terras.  



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