Os lampiões que iluminavam a Vila - Sistema Costa Norte de ComunicaçãoBertioga-Especial | Sistema Costa Norte de Comunicação
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Diferentemente dos imigrantes que aqui chegavam, no início do século XX, João Sabino Abdala aportou em Santos, aos 17 anos, com o sonho de conhecer o país. A família tinha posses e seu pai comercializava trigo. Acabou fincando raízes em Bertioga, onde trabalhou como mascate, a exemplo de outros libaneses recém-chegados à antiga vila. Vendia fardos de  tecidos, até que decidiu abrir um comércio em frente ao atual píer Licurgo Mazzoni, no qual aportavam as lanchas da Cia. Santense de Navegação, com mercadorias e mantimentos para os moradores.

Foto: JCN

Sua filha Zoraide Abdala da Silva conta queos poucos moradores compravam em seu armazém porque “ele foi o primeiro comerciante. Não tinha nem farmácia e até remédios  ele vendia em seu comércio. Depois que abriu a farmácia do seu Humberto da Silva Piques, a  primeira de Bertioga, ele parou de vender medicamentos”. Muitos compravam fiado, umaprática usual, de confiança, que existia na época, mas pagavam.

Hoje, a filha Dulce Bitencourt Abdala e a neta Elizabete comandam o tradicional comércio, o atual Tem Tem, na avenida Vicente de Carvalho, no Centro. Aliás, uma curiosidade: o imóvel que abriga o armazém é o único na cidade que mantém as mesmas características da época do patriarca da família.

Eram nove filhos, quatro mulheres e cinco homens. Zoraide lembra: “Eu tinha muita vontade de estudar, meu pai não deixava nós irmos sozinhas para Santos. Fiz até o   quarto ano e não segui os estudos porque não havia nada em Bertioga, além do ensino fundamental”. Também a cultura libanesa foi preservada: as mulheres não trabalhavam e nem podiam ficar na rua. Vez ou outra, elas podiam trabalhar na venda, lavando os copos.

Foto: Arquivo familiar

Dada à localização de sua primeira loja, João Sabino Abdala sabia de tudo o que acontecia, como quem chegava e quem partia. Diante disso, fez muitos amigos de Santos, Guarujá e de São Paulo, tais como José Ermírio de Moraes, pai de Antonio Ermírio, e Jânio Quadros, que frequentavam a venda. Nela, também se reuniam muitos membros da colônia libanesa, a exemplode Miguel Bichir, Elias Nehme e Jorge Isaac.

Ela lembra que no tempo da Revolução Constitucionalista de 1932, apareciam soldados em Bertioga, ocasiões em que não era permitido acender lampiões. Mais tarde, a Cruz Vermelha montou uma sede e havia médicos aos domingos.

Foto: Arquivo familiar

Com a abertura da estrada Guarujá-Bertioga, a situação melhorou bastante, como diz Zoraide: “Meu pai tinha muitos lampiões espalhados pela casa. Depois conseguiu um gerador para o rádio. Tinha circo em Bertioga, e depois de fechar a venda, ele emprestava os lampiões para as apresentações circenses”. Na década de 1940, o único meio de comunicação tecnológico era o telégrafo. Além disso, só pombo-correio.  

Afora o circo e o parque de diversões, as famílias frequentavam o cinema de Licurgo Mazzoni. Segundo Dulce, outra filha de João Sabino, “também tinha Festa de Reis; as pessoas iam de casa em casa cantando; mesmo assim, papai não nos deixava sair”, conta ela. Os passeios das meninas eram acompanhados pelos irmãos. “Em noite de lua, todos iam à praia; o papai fechava a venda e ia para a casa do Miguel Bichir. Eles conversavam, cantavam músicas árabes, e dançavam ao som do gramofone do Bichir”.  


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