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“Trabalho com artesanato jornal. Gosto de fazer jardim. Já plantei cebolinha, rúcula e pimenta. Gosto de plantas”. Com esta frase simples e um sorriso cativante, no qual se vê sinceridade e meiguice, Augusto dos Santos Cipricio, 27 anos, apresenta-se. Ele tem deficiência mental leve, e é um dos 63 atendidos fixos da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), de Bertioga, com idades entre 18 e 59 anos. Um ambiente repleto de calor, sorrisos e muita gente dedicada à luta diária para dotar pessoas com deficiência de autonomia. 

Foto: JCN

Lá encontramos muitas pessoas especiais, como Claudete Luiza Dulgoni, 58 anos, voluntária na casa há três anos e oito meses. Ela vem de uma família de voluntários, e dedica-se a esta causa desde os 16 anos. “Eu era voluntária em um hospital na minha cidade natal, Birigui”. Em Bertioga, chegou à Apae em um momento de grande tristeza pessoal, e se doar, conforme resume, funcionou como uma terapia. Uma conquista sem volta. “Hoje eu não consigo mais me ver sem a Apae”, diz emocionada.

Foto: JCN

A diarista Marisa Fonseca, 43 anos,  é outra presença imprescindível. Há dois anos foi contratada para fazer uma limpeza na sede e nunca mais saiu. Hoje é coordenadora do grupo de 10 voluntários fixos, e doa parte de seu dia ao cuidado com gente. Ela diz: “Venho todos os dias. Sou apaixonada pelos alunos, beijo todos eles quando chego e quando saio.” 

Foto: JCN

Outro voluntário é Gerson Santiago, de apenas 18 anos, estudante de teatro no Senac Santos. “Com eles, a gente aprende muito. O teatro me trouxe para cá, e eles me fizeram ficar”. O jovem faz parte do projeto de dança contemporânea Da Intenção ao Gesto, criado pelo professor Thiago Lins, com alunos da Apae. 

O grupo ensaia de segunda a sexta-feira, das 8h00 às 10h30, e tanta dedicação resultou na formação do corpo de baile que irá participar do Mapa Cultural Paulista, fase municipal, com a coreografia Cores e Contornos. São 18 integrantes, todos com algum tipo de deficiência, além do professor e do voluntário Gerson, responsável pela linguagem teatral do grupo. 

Foto: JCN

Thiago Lins destaca a importância  da dança para os deficientes: “Cada  um tem o seu movimento e a sua característica. O universo da dança contemporânea não é limitado, e possibilita a participação de todos. Cada qual a seu modo.”

A presidente da entidade, Miriam Pereira, é mãe e irmã de deficiente e responsável pelo movimento que instituiu a Apae na cidade, em 2002. Comanda a casa com o olhar maternal, e se emociona quando vê a dedicação de todos ali. São 63 alunos, 18 funcioná-rios e 10 voluntários, em um ambiente pequeno para tantas atividades, mas muito afetivo e acolhedor. “Eu agradeço muito a Deus pelo grupo que a gente formou aqui dentro. Todos com o espírito e a proposta da Apae,o de se doar”. Ela também agradece aos moradores da cidade: “Bertioga tem uma população maravilhosa, solidária. Se não fosse o carinho dessa cidade inteira nos ajudando, não sei oque seria da gente”.

Foto: Marcos Pertinhes

Práticas inclusivas Incentivar a saída de casa e a socialização dos portadores de necessidades especiais é um dos objetivos da diretoria municipal de Acessibilidade e Inclusão. Dessa forma, realizam-se, anualmente, na cidade, de dez a 15 eventos de acessibilidade, segundo o diretor José Augusto Coelho Filho, também presidente do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência - Condefi. São práticas inclusivas com brincadeiras, lazer e entretenimento para pessoas com deficiência. Regularmente, são oferecidas na cidade atividades adaptadas de canoagem, vela, oficinas de arte e esportes, além do banho de mar assistido, por meio de 25 cadeiras anfíbias, do programa Praia Acessível, disponibilizadas diariamente em parceria com o Sesc Bertioga, Riviera de São Lourenço, Apae e o Núcleo Assistencial à Criança Especial - Nace.  Mesmo com tantas oportunidades, de acordo com José Augusto, a participação da comunidade é baixa. “As ações chegam a uma parcela extremamente pequena dos bertioguenses. É preciso que estas pessoas saiam de casa, participem e vivam”, conclama.

Foto: Aline Pazin

Ainda como forma de incentivar a prática de atividades à pessoa com deficiência, Bertioga foi contemplada com duas academias inclusivas de ginástica ao ar livre, compostas por 11 equipamentos doados pelo governo do estado. Elas serão instaladas, de acordo com José Augusto, na orla da praia da Enseada - conjuntamente com os equipamentos já existentes no local, e no Jardim Vista Linda, em área anexa ao Nace. Os aparelhos funcionam sobre uma plataforma, na qual o usuário se instala com a cadeira de rodas travada com um sistema próprio da estação. Cada academia de musculação conta com aparelhos para trabalhos de braço, perna, abdômen, tronco e coluna. 

Foto: Aline Pazin

De acordo com José Augusto, em alguns aparelhos, durante o movimento, a plataforma onde está apoiada a cadeira de rodas se eleva e, para isso, o usuário utiliza o peso do corpo para interagir corretamente com o equipamento. “Não é preciso instrutor para se exercitar. Os aparelhos têm a chancela do Comitê Parolímpico Brasileiro. São equipamentos de última geração para oferecer atividades que favoreçam a qualidade de vida de pessoas com deficiência física, sensorial e motora.” 

Outras mãos

 Recentemente, foi instituída no município a Comissão das Mães com Crianças Especiais de Bertioga, presidida por Shirley Santos Nagay. Dentre as propostas iniciais do grupo, está a formação e aprovação de voluntários  tutores para atuar nas escolas municipais, junto aos estudantes especiais, reformas na unidade do Nace e melhorias nos serviços de equoterapia, oferecidos pela prefeitura local. “Não estamos aqui para brigar, nem bater de frente com ninguém, só queremos nos unir e buscar o melhor para nossos filhos”, afirma Shirley. O grupo ainda não conta com endereço social. Mas possui uma página na internet para informações e contatos: www.facebook.com/comeb.

Foto: Aline Pazin

Bertioga possui duas frentes oficiais de atendimento aos portadores de necessidades especiais: o Núcleo Assistencial à Criança Especial - Nace, no Jardim Vista Linda, e a  Equoterapia, no paço municipal. O Nace atende aproximadamente 130 crianças, de 0 a 18 anos, com os serviços de reabilitação por meio de fonoaudióloga, fisioterapia, terapia ocupacional, psicopedagogia, psicóloga e assistente social. 

Foto: Aline Pazin

Em sala de aula, o Nace atende 15 crianças em três classes especiais. O ensino é dividido de acordo com o estágio de aprendizagem: socialização, alfabetização e posterior encaminhamento à rede municipal de ensino regular. Os alunos também contam com aulas de música, atividade de vida diária, arte e música. “Quando a mãe aceita a necessidade especial da criança, e se compromete   com o tratamento, dá resultado”, diz  a assistente social Cristianne Martin,  responsável pela casa.

Foto: Aline Pazin

 O serviço de equoterapia é disponibilizado gratuitamente e, atualmente, atende 104 pessoas, independentemente de idade. A equoterapia é indicada no tratamento dos mais diversos tipos de comprometimento físico e mental, como doenças do crescimento; malformação da coluna; acidentes com sequelas de fraturas, epilepsia controlada, poliomielite, encefalopatia crônica da infância e sequelas de traumatismo craniano encefálico.

 A terapia também é destinada a portadores de doenças de Parkinson, doenças respiratórias, distúrbios mentais (Síndrome de Dow), comportamentais (autismo), sensoriais (deficiência visual e auditiva) e emocional (insônia, ansiedade e estresse), entre outras necessidades. O atendimento acontece de segunda a sexta-feira, das 8h às 16 horas. O trabalho é feito de uma a três vezes por semana, dependendo da necessidade dos assistidos. 

Foto: Aline Pazin

Na rede municipal de educação, o programa de inclusão atende 98 crianças, segundo a Secretaria de Educação e Desenvolvimento Social. A rede conta com cinco escolas acessíveis (Emef Dr. Dino Bueno, Emeif Boraceia, Emef Inácio Hora, EM José de Oliveira Santos); quatro salas de atendimento educacional especializado - AEE, nas unidades Emef Boraceia, Emef Inácio Hora, Emeif Vista Linda e Emeif Rio da Granja.

Foto: Aline Pazin

 De acordo com Brenda Coelho Lemos, da Secretaria de Educação, a previsão é de que a rede municipal receba equipamentos em breve para chegar a 13 salas de AEE. No entanto, a rede conta apenas com seis professores especializados. Quatro deles atendem nas escolas, e dois no Nace. No último concurso público municipal, em 2010, foram abertas 18 vagas, mas não foram preenchidas por falta de candidatos.  

Turismo acessível

As práticas inclusivas realizadas na cidade têm atraído turistas especiais para a cidade. Eles vêm em busca de lazer,  atividades adaptadas e socialização. De  acordo com o diretor de acessibilidade e  inclusão José Augusto, Bertioga é vista  por estes grupos como uma cidade naturalmente acessível. “A nossa praia tem  uma areia compacta, e mar compatível com acessibilidade e inclusão, pois tem  declive suave, águas tranquilas e áreas abrigadas como o cantão do Indaiá. Isso facilita muito, pois eles conseguem se locomover com facilidade”. José Augusto diz que há grupos que fecham um hotel inteiro. “Esses grupos nos procuram, e nós atendemos com a promoção de diversas atividades ao ar livre. Isso favorece muito o trade turístico, pois eles compram hotel, restaurante e serviços náuticos. É um segmento que vale ser trabalhado. O turismo acessível é espetacular.”  


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